15 de outubro de 2012

Através da entevista da Professora Luciana (ISEPAM) ao Jornal Folha da Manhã , minha homenagem à todos colegas da Educação.

Esperança no futuro

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Baixos salários, condições adversas de trabalho e desvalorização da carreira são alguns dos problemas enfrentados cotidianamente pelos professores de todo o país, principalmente por aqueles que lecionam na rede pública. Hoje, Dia do Professor, a pergunta que muitos se fazem é: O que há para comemorar?

A professora Luciana Ribeiro Paiva, de 48 anos, com 25 dedicados ao magistério, já lecionou em escolas do interior do município de Campos (Baixa Grande e Rio Preto) e em escolas da rede particular do município, e atualmente dá aulas de Português, Redação e Literatura em turmas do ensino médio no Instituto Superior de Educação Professor Aldo Muylaert (Isepam) e em um colégio da rede privada de ensino. Ela comentou as dificuldades para a preparação das aulas, haja vista a necessidade que tem o professor de possuir mais de uma fonte de renda ou matrícula em instituições de ensino para equilibrar o orçamento doméstico. A desvalorização que se reflete nos baixos salários acaba chegando à sala de aula e à própria família do professor.

— É fato que a maior parte dos pro-fessores tem mais de um vínculo profissional. Sou parte deste grupo e reconheço que, muitas vezes, o trabalho torna-se um fardo muito pesado.
Temos a preparação das aulas, a prática delas e a correção. Neste processo, há o cansaço e a falta de tempo para outras atividades e, até mesmo, para a família que, muitas vezes, é deixada em segundo plano por termos que arcar com nossos compromissos — expôs Luciana.

Mudanças que aconteceram no comportamento social fizeram a escola perder a referência como a única responsável pela educação dos estudantes, o que revela a necessidade de uma nova concepção pedagógica. Exemplo disso é o uso das novas tecnologias e a influência da mídia.

“A educação no mundo moderno não é feita somente da participação da escola e da família na vida da criança. Outras instituições também estabelecem parceria na ação pedagógica e a mídia, com certeza, é uma delas. O ser humano se torna cada vez mais dependente da tecnologia. Um exemplo prático é o uso do celular que tem sido o “terror” de muitos professores em sala de aula”, disse Luciana, acrescentando que esse é um caminho sem volta, ressaltando que o professor deve estar atento e estimular o uso consciente e crítico das tecnologias para que a escola não se distancie dos apelos e necessidades desta sociedade excessivamente midiática.

Além dessa mudança, houve também uma ruptura na relação pais e professores. Luciana relatou que há cerca de 20 anos, “a educação era vista como algo promissor”, mas, com o passar dos anos, muitas famílias acabaram se tornando ausentes na vida dos filhos, fazendo a transferência da responsabilidade e do ônus do fracasso escolar para o professor. “Se a família se unisse à escola objetivando a educação de seus filhos, grande parte dos problemas enfrentados nas escolas estaria resolvida”, opinou.
Mesmo com todas essas situações expostas, espera-se uma resposta negativa para a pergunta sobre a comemoração da data que homenageia os educadores. Porém, a professora Luciana Paiva responde com esperança na mudança, na criação de novos paradigmas.

— Ainda que tantos entraves e problemas façam parte do processo educacional, o professor continua a ser aquele que busca transformar seu aluno. Costumo dizer a meu aluno que ele entra na escola para sair dela “diferente” e é expondo este tipo de ideia que percebo uma atitude proativa em relação às aulas. Isso sim é motivo de comemoração! — finalizou a professora.
Talita Barros

14 de outubro de 2012

PROFESSORES DO BRASIL




                                                De:  Valdecy Alves
Ah, professores!
Hoje é teu dia
Estás em guerra
Sempre contra a  ignorância
Sempre contra as trevas
Mas também travas uma guerra
Por salário digno e justa carreira
O teu agora é radical lutar!
Mesmo assim, nesse inferno
De aniquilação dos teus direitos
De luto na luta
Dia e noite sem trégua
Só por não desistir e persistir
Tens o que comemorar!
Mesmo não sendo hora de sorrir
Ínfima a chama da alegria
Sem a guarda poder baixar...
Comemora! Recarrega teu fôlego
Afia tua espada, prepara  tua lança
Mas não perdas a visão do horizonte
O futuro do Brasil de ti depende
Pois não há futuro sem o educar
Como soldado dos teus direitos
Começastes a guerrear
Mas vistes que a guerra é maior
Contra os inimigos da educação
Cujos alicerces políticos na ignorância do povo
Estás com o teu ideal e reação a ameaçar!
Tua luta, pois, é múltipla:
Enfrentas os joãos-grilos
Que se tornaram governantes...
Os pinóquios espertalhões
Em muitos parlamentos
A estelionatar!
Tonaste-te arauto  da educação
Que da liberdade alimenta a chama...
Fizeste das ruas salas de aula
Quando por teus direitos lutas
Assim ameaças velhos tempos
Anuncias novo dia
Com pleno e radical exemplo de cidadania
Melhor forma de educar!
És o sol do horizonte social
Após a longa noite coronelesca secular
Do atraso e da escravidão
Da pilhagem e da corrupção
Ferramenta de luz és, também és do despertar!
Sol é luz, pai do vento que sussurra
Dizendo: - construa o novo amanhã!
Sol pai do azul do céu, do verdejante sertão
Pai e avô do verde esperança
De cada novo aluno a estudar!
Converteste  a ti mesmo em certeza
De nova era do prosperar
Por isso por ti! Por teus direitos! Luta!
Luta pelo direito geral  à educação...
Luta! Luta! Persista! Persista!
Com a força e a insistência das ondas do mar!
Para que assim preserves tua dignidade
E a dignidade de todo o povo
Que tem seus alicerces no  educar
Trégua no dia 15! É teu dia...
Porém após,  com aurora do novo amanhecer
Aonde os  alicerces do futuro
Clamam por tua presença, por tua consciência
Pela ação que é a guerra para transformar
Escultor de novos seres, novas pessoas, novas eras
Com o cinzel do saber e do sábio usar
Retomas teu posto ao cair da estrela d´alva
E  brilhas cavalgando no sol bradando: Lutar! Lutar!

12 de outubro de 2012

REDA

Jornal Folha da Manhã

Protesto por pagamento

As professoras, mediadoras e assistentes contratadas pelo Regime Especial de Direito Administrativo (Reda), em julho deste ano, realizaram na manhã de hoje uma manifestação na frente da secretaria municipal de Educação (Smec) reivindicando o pagamento do salário, que, segundo elas, não é pago há três meses. A secretária da pasta, Joilza Rangel teria prometido que o dinheiro seria depositado hoje, mas a promessa não foi cumprida. O problema estaria em uma decisão do juiz da 4ª Vara da Comarca de Campos dos Goytacazes, Wladimir Hungria, que concedeu liminar suspendendo todos os contratados sob o regime do Reda e pagamentos sob pena de multa diária de R$ 5 mil. Até o momento, nenhuma resposta definitiva foi dada às funcionárias, que continuam trabalhando sem receber o salário e sob a ameaça de ter o contrato desativado.
A decisão do juiz foi tomada porque, de acordo com ele, os processos seletivos realizados com fundamento no REDA são, a priori, inconstitucionais, já que estariam violando os princípios do concurso público, realizado este ano. Ele disse que os cargos oferecidos aos contratados revelam atividades permanentes, que deveriam ser exercidas por servidores públicos concursados. Além disso, os contratos foram realizados três meses antes das eleições municipais, o que também comprova a inconstitucionalidade da prática.

De acordo com a assistente de berçário da creche escola Felix Miranda, Lara Barreto de Oliveira, após sair a decisão do juiz, todas as funcionárias teriam procurado a direção de cada instituição e também à secretária Joilza, que responderam que nenhum contratado deveria parar e caso o fizessem, teriam os pontos cortados e o contrato de dois anos assinado por elas, anulado. Lara disse ainda que, além de não estarem recebendo o salário, todos os contratados da secretaria de Educação também não recebem vale transporte e auxílio alimentação.

— Mandaram a gente continuar trabalhando e ainda disseram para não darmos ouvidos à decisão do juiz, porque quem manda na secretaria e nos contratados da mesma, é a secretária. Estamos sem saber o que fazer. As contas estão chegando, não temos dinheiro para pagar e estamos cheias de dívidas. Precisamos de uma solução urgente! — falou a contratada.

Sepe se posiciona

O posicionamento do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (Sepe) é de repúdio à decisão da secretaria de Educação de manter os funcionários contratados trabalhando, mesmo após a decisão judicial. De acordo com o diretor jurídico do Sepe, Sandro Fabiano de Paula, os profissionais não deveriam se manter no cargo sem a garantia de que o salário será pago. “Essa é uma afronta aos professores, assistentes e mediadores. Estou encaminhando o caso ao advogado, mas, de antemão, já posso afirmar que a situação não é simples. Estamos aguardando o posicionamento oficial da justiça, mas espero que esses profissionais não tenham jogado fora esses três meses de trabalho.

Em nota, a prefeitura informou que o procurador Geral do Município, Fabrício Ribeiro, disse que o município tem dois recursos pendentes, visando suspender a decisão do juiz da 4ª Vara Cível. O procurador falou ainda que aguarda confiante a decisão do Tribunal de Justiça. Já a secretaria municipal de Educação preferiu não comentar o assunto.
Ulli Marques

11 de outubro de 2012

CEJOPA

  1. Uma das professoras - atual diretora - do CEJOPA arrolada no inquérito administrativo por desvios de verbas é na verdade a denunciante da conduta ilícita praticada por terceiros. Entretanto, de denunciante passou a condição de ré pelo TCE. O departamento jurídico do SEPE cujo diretor é o Professor Sandro Fabiano, juntamente com a Professora Flávia, levaram o assunto para Dr. Alexandre. Serão tomad
    as as medidas cabíveis para corrigir quaisquer injustiças contra a professora em questão.
    A comunidade escolar do CEJOPA encontra-se mobilizada em defesa do nome da Professora Flávia, solidarinzando-se com ela e dando todo apoio necessário. Hoje houve paralisação das aulas em protesto a injustiça sofrida pela professora.
    A Regional Norte Fluminense I está agindo no sentido de susbstituir a professora, hoje diretora do CEJOPA, a revelia da comunidade escolar que não aceita a medida prestes a ser adotada.
    O SEPE SOMOS NÓS.NOSSA FORÇA, NOSSA VOZ!

CEJOPA

Toda mobilização é importante. Só não entendi o porquê dessa ação isolada dos colegas do CEJOPA, que contam com a representação do sindicato (SEPE). Coletivamente a luta é árdua, isoladamente não funciona. O SEPE tem atendimento jurídico e está franqueado à categoria. JUNTOS SOMOS MAIS FORTES!
PROFESSORES DO CEJOPA COMUNICAM PARALIZAÇÃO DAS ATIVIDADES
Colégio Estadual José do Patrocínio(CEJOPA)

O blog recebeu esse comentário, assinado por professores da CEJOPA e coloca como postagem.

O blog apóia a atitude dos professores da CEJOPA em repúdio às agressões sofridas por profissionais da educação.

Professores do CEJOPA disse...

Caros blogueiros,

Nós, professores do Colégio Estadual José do Patrocínio(CEJOPA), após reunião realizada no dia 09/09/2009, às 10h, nas dependências desta unidade de ensino, decidimos paralisar as atividades na instituição em repúdio às agressões sofridas por profissionais da educação na última terça-feira. A manifestação realizada em frente ao prédio da ALERJ, no Rio de Janeiro, contra o descaso das autoridades em relação à categoria foi reprimida violentamente, deixando 11 professores feridos.

A decisão sobre a paralisação nesta unidade foi tomada pela maioria presente na reunião, e todos os professores se dirigiram às salas de aula com o objetivo de comunicar aos alunos sobre a posição adotada. Buscamos ainda conscientizá-los a respeito do comprometimento de todos, docentes e discentes, na luta por uma educação responsável e de qualidade.

Finalmente, estaremos reunidos amanhã, 11/09, às 7h30min, a fim de apurarmos os resultados deste ato, reafirmando uma posição de alerta contra todas as atitudes que ameacem a construção de um projeto de sociedade livre, justa, ou que não considerem a educação como princípio básico.

Publiquem, se puderem!

8 de outubro de 2012

SINDPEFAETEC

Nos dias 06,07 e 08 de Novembro acontece as eleições para nova diretoria do SINDPEFAETEC, gestão 2013/2015.
A Unidade Classista está compondo a CHAPA 2 - Oposição pela Base: Mobilização, Luta e Conquista!
As escolas da FAETEC em Campos são: o ISEPAM, João Barcelos Martins e Escola Técnica Agrícola.
A eleição é estadual e concorrem duas chapas.
A Chapa 2 conta com os nomes de Graciete Santana (ISEPAM), Amaro Sérgio (Agrícola) e André Gomes ( JBM).
É a luta que segue...

2 de outubro de 2012

Especial Eric Hobsbawm

Café História

Eric Hobsbawm: vida e obra de um historiador singular
Conheça mais sobre a trabalho e a trajetória de um dos mais importantes historiadores britânicos do século XX.
Um giro pelo noticiário nacional e internacional neste dois de outubro de 2012 evidencia o enorme reconhecimento que Eric Hobsbawm conquistou ao longo de quase oito décadas dedicadas ao estudo da história. A morte do historiador britânico, ocorrida ontem, na Inglaterra, aos 95 anos, foi capa dos principais jornais do mundo. Hobsbawm, que estava internado no Royal Free Hospital, em Londres, morreu em decorrência de uma pneumonia, deixando esposa, três filhos, sete netos, um bisneto e milhões de admiradores pelo mundo, muitos dos quais brasileiros. Em sua homenagem, o Café História preparou o presente texto, no qual lembramos sua trajetória, suas várias identidades e a recepção de sua obra, citada em um número incalculável de trabalhos que abordam a história mundial do século XIX e XX.

Hobsbawm: o historiador
Eric Hobsbawm esteve certamente entre os historiadores britânicos mais importantes e influentes do século XX. Como docente, foi um profissional dedicado e fiel. Atuou praticamente toda a vida na mesma instituição de ensino, o Birkbeck College, em Londres, onde foi admitido em 1947. Em termos historiográficos, esteve ao lado de nomes como E.P. Thompson, Raymond Williams e Christopher Hill, uma bem sucedida geração de historiadores de esquerda que rompeu com uma leitura ortodoxa do marxismo, excessivamente economista, determinista e desprovida de conexão com a prática política. Hobsbawm não fez parte diretamente, mas também acompanhou a reestruturação dos historiadores de esquerda em torno da revista “New Left”, na década de 1950, importantíssima no contexto político e intelectual do pós-guerra. Em seus textos, mostrou sempre uma incrível erudição. O historiador Christopher Hill disse certa vez, brincando, que nada se podia ensinar ao colega Eric Hobsbawm. “Ele já sabia de tudo”.
No Brasil, “A Era dos Extremos – O Breve Século XX: 1914 -1991” foi notadamente o seu livro mais conhecido. Editado pela Companhia das Letras, o título vendeu incríveis 227 mil exemplares, tornando-se um verdadeiro best-seller na área. Mas as suas principais contribuições à historiografia estão mesmo em obras anteriores, tais como “A Invenção das Tradições” e “Nações e Nacionalismos desde 1870”, nas quais analisa a complexa estruturação dos Estados nacionalistas do século XIX, e “História Social do Jazz” e “Mundos do Trabalho: Novos Estudos Sobre a História Operária”, onde o autor explora a trajetória do mundo do trabalho a partir não só da ótica econômica, mas também do social. É dele também a série composta pelos livros "A Era das Revoluções", "A Era do Capital" e "A Era dos Impérios", que fazem companhia ao já mencionado "A Era dos Extremos". Seu último livro, "Como mudar o mundo", uma coleção de ensaios, foi publicado em 2011 no país pela Companhia das Letras.
Uma característica presente em quase todas as obras de Hobsbawm é a acessibilidade da narrativa. Além de bom pesquisador, o historiador tinha uma boa escrita, sabendo alcançar o grande público sem abrir mão da profundidade de suas análises históricas. Afonso Carlos Marques dos Santos, antigo professor de Teoria de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro, falecido em 2004, fez certa vez uma síntese bastante original da história feita por Hobsbawm, destacando uma outra característica do historiador inglês - a coragem para desafiar paradigmas do marxismo:
- “É evidente que Hobsbawm orientou a sua construção historiográfica a partir de uma ambição totalizante, muito cara ao marxismo, mas soube fazê-lo com sensibilidade, ampla cultura geral e abertura para novas formulações oriundas de outras tendências historiográficas. Abertura que deve ter desagradado àqueles que, do lado de cá do Atlântico Sul, vivem incomodados com o que chamam “modismos pós-modernos” ou “desvios irracionalistas” das temáticas clássicas da ortodoxia marxista. Na introdução de A Era dos Impérios Hobsbawm usou como epígrafe uma passagem de Pierre Nora em Les Lieux de Mémoire, onde a história aparece como “a sempre incompleta e problemática construção do que já não existe”. Nesta citação, Nora, ao demarcar as distinções entre memória e história também afirma: “A memória sempre pertence a nossa época e está intimamente ligada ao presente eterno; a história é uma representação do passado”. Hobsbawm , ao problematizar o período 1875-1914, começa pela própria história da sua família valendo-se da memória para motivar a penetração num tempo que se fecha na altura do seu próprio nascimento. Recorre, portanto, a uma dimensão biográfica e individualizada da existência humana para falar de um tempo socialmente repartido. E é curioso que tenha lançado mão de Pierre Nora, uma personalidade central no campo da editoração de obras históricas na França. A heterodoxia de Hobsbawm certamente não deve ter agradado àqueles que, mesmo sem muita familiaridade com a produção historiográfica internacional, apontam de forma condenatória para o que seria a “nossa francofilia” no campo dos estudos históricos”. (leia essa análise, na íntegra, clicando aqui).
Hobsbawm: o intelectual
Além de historiador, Hobsbawm tinha ainda uma faceta bastante rara atualmente entre profissionais da área: era um intelectual público ativo. Na Inglaterra e no exterior, Hobsbawm sempre foi figura fácil em artigos, ensaios e entrevistas, falando de algum acontecimento do momento. Nos atentados de 11 de setembro, por exemplo, foi um duro critico das explicações de “choque de culturas”. Para Hobsbawm, o terrorismo deveria ser entendido a partir de uma relação de dominação e exclusão promovida pelo Ocidente ao longo dois últimos dois séculos. Foi ainda neste âmbito conselheiro de figuras importantes da política mundial, com Luís Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil, e participou com frequência de eventos públicos em todo o mundo. Esteve pela última vez no Brasil em 2003, quando foi uma das principais atrações da Festa Literária de Paraty (FLIP).
A presença costumeira no espaço público talvez se explique pela própria experiência de vida do historiador. Nascido em Alexandria, Egito, no ano de 1917, Hobsbawm foi testemunha daquilo que ele chamou do “breve século XX”, um século bastante acelerado pela enormidade de acontecimentos impactantes em termos políticos e culturais. Filho de pai britânico e mãe austríaca, viveu muitos cenários e situações deste período de bem perto. Cresceu em Viena e, após a morte dos pais, judeus, mudou-se para Berlim. Após testemunhar a ascensão do nazismo de Hitler, mudou-se com o tio e a irmã para Londres. Acompanhou, então, a Segunda Guerra Mundial, a crise europeia, a Guerra Fria e toda uma gama de eventos históricos que transformaram o planeta.
Hobsbawm - como todo grande pensador - também acumulou críticas ao longo da vida. A maior delas se refere a sua fidelidade ao Partido Comunista (PC), inabalável mesmo durante a Invasão Soviética à Hungria, em 1956. Permaneceu membro do PC até a sua desintegração, em 1989. Outra crítica também comum a Hobsbawm se refere a sua relação com o stalinismo. Para o professor de história da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Ricardo da Costa, Hobsbawm omitiu em suas obras muitas informações sobre os horrores cometido em nome do marxismo-leninismo soviético. (leia esta crítica, na íntegra, aqui).
Hobsbawm para os historiadores brasileiros
Procurando entender um pouco mais da relevância de Eric Hobsbawm no Brasil – um dos países onde era mais lido, além da Itália – o Café História conversou com algumas pessoas que vivem o cotidiano acadêmico no país. Nossa ideia era identificar como Hobsbawm se tornou a referência entre historiadores brasileiros que é hoje, mesmo quando objeto de críticas.
Monica Grin, professora de história contemporânea do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IH-UFRJ) desde 1997, explicou ao Café que a narrativa de Hobsbawm tem o mérito de não só ter popularizado e historicizado o marxismo para legiões de estudantes, como também se tornou indissociável da própria história contemporânea. Grin sublinhou ainda que durante muito tempo Hobsbawm “frequentou” os seus programas de curso na UFRJ, sendo lido com grande prazer pelos alunos:
- Adotei em diversas conjunturas os livros de Hobsbawm. Usei “História do Marxismo - 12 volumes” , “A Era das Revoluções – 1789-1848”, A Era do Capital - 1848-1875” e “A Era dos Impérios - 1875-1914” quando se tratava de aulas para a graduação sobre a emergência do marxismo no século XIX, sobre os desdobramentos sociais da chamada Revolução Industrial e sobre os Impérios e Imperialismos. Não raro, comparava Hobsbawm com Thompson e Polanyi para compreender a história social de um perspectiva marxista, conforme a historiografia inglesa marxista; com Hannah Arendt para discutir imperialismo. Em outras situações, o tema do Estado nação e do nacionalismo me fazia visitá-lo, quer em “Nações e Nacionalismo”, quer em seu livro com Trevor-Roper, “A Invenção da Tradição”. Neste caso também não me furtava às comparações com Gellner, Benedict Anderson, Charles Tilly, Anthony Smith. Cheguei a usar também alguns de seu ensaios em historiografia que saíram em “Sobre história”.
Maria Paula Araújo, também professora da UFRJ, revela uma memória bastante interessante, que remete a um jantar que ela e mais três amigas tiveram com o historiador inglês nos anos 1980, no Rio de Janeiro, na ocasião do lançamento de um de seus livros no Brasil:
- Eu tenho orgulho de dizer que tenho na minha estante quase todos os seus livros. E também tenho na memória uma noite em que eu, Helena Maria Gasparian, Adriana Benedikt e Vera Paiva, nós quatro iniciando o mestrado (acho que isso foi em 1983 ou 84) levamos Hobsbawm para jantar no Lamas (tradicional restaurante do Rio de Janeiro). Ele era um dos autores exclusivos da Editora Paz e Terra (do Fernando Gasparian, pai da Helena) e nos coube esta tarefa - levar Hobsbawm e a esposa para jantar. Na época nós achávamos que o Lamas era um restaurante quase sofisticado (estávamos acostumadas com o Jobi, o Diagonal e a Pizaria Guanabara). Foi uma noite inesquecível. Hobsbawm deu palpite nos nossos trabalhos, até no da Vera, que era sobre a "Lilith" (a primeira mulher de Adão, insubmissa e devassa, que foi banida do Paraíso e da Bíblia).
Maria Paula completou ainda dizendo que embora o encontro tenha se dado há quase 30 anos, não esquece da generalidade e a versatilidade de Hobsbawm, disposto a conhecer e a opinar sobre o trabalho daqueles quatro mestrandas brasileiras de vinte e poucos anos.
Já Zózimo Trabuco, professor de História do Brasil da Universidade Federal de Feira de Santana, contou ao Café que acredita ter começado a ler os textos de Hobsbawm como a maioria dos seus leitores: a partir das “Eras”. “O modo como relacionava as ideias e as práticas sociais às mudanças políticas e econômicas e a visão comparativa dessas relações em diferentes lugares dentro de uma mesma temporalidade sempre me fascinou”, diz o professor. Sobre a história feita de Hobsbawm, Trabuco diz também:
- Acho que Hobsbawm representou um modo de compreender a história e o papel do intelectual que se confundem com o conjunto de sua obra e os tempos históricos aos quais ele se dedicou a analisar: grandes sínteses, visão global ou cosmopolita das transformações do mundo, senso de responsabilidade política da pesquisa e da comunicação do conhecimento histórico, e apesar - ou em função - das opções políticas pessoais que fez ao longo da vida, um rigor teórico e metodológico que o fazia ter o compromisso ético de reavaliar ideologias e alternativas políticas que marcaram sua trajetória como intelectual público. Neste sentido, o "Breve Século XX" foi em Hobsbawm o longo século de um modo de fazer História, foi a "Era de Hobsbawm".
Mas não é só entre professores que Hobsbawm é referência. Entre estudantes de história também. João Teófilo, estudante do nono período do curso de história da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UEVA), na cidade de Sobral, disse que ficou muito triste quando soube da morte do historiador, por quem tinha grande admiração. Teófilo explicou que os textos de Hobsbawm estavam presentes nos cursos de sua faculdade e revelou porque gosta tanto dos textos do autor:
- Os escritos de Hobsbawm, embora de uma linguagem complexa, são de uma riqueza ímpar, uma vez que a maestria do historiador, de uma erudição invejável, mais que proporcionar um entendimento inteligente que nos ajuda a refletir sobre a relação do homem com o tempo-espaço, serve de exemplo para uma escrita exemplar da História. As leituras de Hobsbawm, a exemplo de “A Era do Extremos”, deixam claro que, não por acaso, ele é um dos maiores historiadores.
Discutindo Hobsbawm
E você, estudante, professor ou apenas interessado por história, também gosta da história produzida por Hobsbawm? O debate continua no nosso fórum sobre o tema, que pode ser acessado aqui. Neste espaço, estamos discutindo as maiores contribuições dadas por Hobsbawm à historiografia. Tem reservas ou críticas a obra do autor? Este também é o espaço. Acesse, compartilhe suas ideias e enriqueça o debate.

1 de outubro de 2012

Morre Eric Hobsbawm, um dos maiores historiadores do século 20


Atualizado em  1 de outubro, 2012 - 10:23 (Brasília) 13:23 GMT

Eric Hobsbawm | Crédito da foto: Getty
Historiador Eric Hobsbawm morreu aos 95 anos em Londres.
Um dos mais influentes historiadores do século 20, o britânico Eric Hobsbawm morreu nesta segunda-feira em Londres aos 95 anos, confirmaram familiares.
Em entrevista à imprensa, a filha de Hobsbawn, Julia, disse que seu pai morreu no início da manhã no Royal Free Hospital, onde ele se tratava de uma pneumonia.
"Sua ausência será imensamente sentida não só por sua esposa de mais de 50 anos, Marlene, por seus três filhos, sete netos e bisnetos, mas também por muitos leitores e estudantes ao redor do mundo", informou um comunicado da família.
A reputação do historiador deve-se, principalmente, a quatro obras escritas por ele, entre elas "Era dos Extremos: o Breve Século 20: 1914 - 1991", livro que foi traduzido em 40 línguas.
De família judia, Hobsbawm nasceu na cidade de Alexandria, no Egito, em 1917, o mesmo ano da Revolução Russa, que representou a derrocada do czarismo e o início do comunismo no país.
Não por coincidência, a vida do historiador e seus trabalhos foram moldados dentro de um compromisso duradouro com o socialismo radical.
O pai de Hobsbawm, o britânico Leopold Percy, e sua mãe, a austríaca Nelly Grün, mudaram-se para Viena, na Áustria, quando o historiador tinha dois anos e, logo depois, para Berlim, na Alemanha.
Hobsbawm aderiu ao Partido Comunista aos 14 anos, após a morte precoce de seus pais. Na ocasião, ele foi morar com seu tio.
Em 1933, com o início da ascensão de Hitler na Alemanha, ele e seu tio mudaram-se para Londres, na Inglaterra. Após obter um PhD da Universidade de Cambridge, tornou-se professor no Birkbeck College em 1947 e, um ano depois, publicou o primeiro de seus mais de 30 livros.
Hobsbawm foi casado duas vezes e teve três filhos, Julia, Andy e Joshua.
Na década de 80, Hobsbawm comentou sobre sua fuga da Alemanha. "Qualquer um que viu a ascensão de Hitler em primeira mão não poderia ter sido ajudado, mas moldado por isso, politicamente. Esse garoto ainda está aqui dentro em algum lugar - e sempre estará".

Obra

Entre as obras mais conhecidas de Hobsbawm, estão os três volumes sobre a história do século 19 e "Era dos Extremos", que cobriu oito décadas da Segunda Guerra Mundial ao colapso da União Soviética.
Já como presidente do Birkbeck College, ele publicou seu último livro, "Como mudar o mundo - Marx e o marxismo 1840-2011", no ano passado.
O historiador afirmou que ele tinha vivido "no século mais extraordinário e terrível da história humana".
Marxista inveterado, ele reconheceu a derrocada do comunismo no século 20, mas afirmou não ter desistido de seus ideais esquerdistas.
Em abril deste ano, Hobsbawm disse ao colega historiador Simon Schama que ele gostaria de ser lembrado como "alguém que não apenas manteve a bandeira tremulando, mas quem mostrou que ao balançá-la pode alcançar alguma coisa, ao menos por meio de bons livros".

26 de setembro de 2012

Maurício Tragtenberg e a Pedagogia Libertária*

 
Resumo:
Nosso objetivo é resgatar o pensamento político-pedagógico de Maurício Tragtenberg. De um lado, a crítica incisiva que desvenda o modelo pedagógico burocrático fundado na vigilância e na punição, na relação de dominação, no saber formal transformado em mercadoria de consumo, uma pedagogia que predomina na maioria das nossas escolas e universidades. De outro, o itinerário de uma alternativa pedagógica libertária, recuperada e sintetizada na práxis do educador contemporâneo. No final do percurso, a certeza da sua atualidade.

O modelo pedagógico-burocrático: vigiar e punir
A peculiaridade da pedagogia libertária se expressa pelo questionamento de toda e qualquer relação de poder estabelecida no processo educativo e das estruturas que proporcionam as condições para que estas relações se reproduzam no cotidiano das instituições escolares. É de conhecimento geral, a tese de que a interação entre os diversos personagens que atuam no espaço escolar reproduzem as relações sociais predominantes na sociedade.
Deste ponto de vista, Tragtenberg se coloca a seguinte questão: "conhecer como essas relações se processam e qual o pano de fundo de idéias e conceitos que permitem que elas se realizem de fato". Sua análise busca apreender como a escola atua enquanto "poder disciplinador" pois, conforme afirma o filósofo Michel Foucault, "a escola é o espaço onde o poder disciplinar produz saber". (TRAGTENBERG, 1985: 40)
Como surge esta situação? As origens desta instituição disciplinar remonta às necessidades de controle da força de trabalho e, simultaneamente, das exigências técnicas administrativas produzidas pelo avanço da revolução industrial. Não por acaso, os métodos de controle do operário assemelham-se àqueles utilizados no âmbito do espaço escolar: delimitação e enquadramento do tempo e da forma como este deve ser utilizado; e, domínio dos processos, gestos, atitudes e comportamentos. (estes métodos foram ainda mais intensificados com a adoção do taylorismo).
A fusão de um saber, constantemente acumulado e renovado pela própria natureza da instituição escolar, com as técnicas disciplinadoras-burocráticas herdados dos presídios avultam os efeitos da concentração do poder de dominação e controle. A escola, através do saber, aperfeiçoa os meios de controle, podendo dar-se ao luxo de dispensar o recurso à força. A própria prática de ensino pedagógica-burocrática permite-o, na medida em que reduz o aluno ao papel de mero receptáculo de conhecimento, fixa uma hierarquia rígida e burocrática na qual o principal interessado encontra-se numa posição submissa e desenvolve meios para manter o aluno sob vigilância permanente (diário de classe, boletins individuais de avaliação, uso de uniformes modelos, disposição das carteiras na sala de aula, culto à obediência, à superioridade do professor etc.).
Nesta estrutura escolar, o poder de punir é legitimado e concebido como natural. Como salienta Tragtenberg: "Na escola, ser observado, olhado, contado detalhadamente passa a ser um meio de controle, de dominação, um método para documentar individualidades. A criação desse campo documentário permitiu a entrada do indivíduo no campo do saber e, logicamente, um novo tipo de poder emergiu sobre os corpos". (Idem)
A prática de ensino resume-se, então, à transmissão de um conhecimento 'superior' (no sentido de estar sob domínio professoral) e à adoção de técnicas de memorização de conteúdos. Um conhecimento, portanto, formal e selecionado à revelia dos diretamente interessados e passível de questionamento quanto à sua própria utilidade.
Tudo isto pode ser resumido em: vigiar e punir. De fato, esta prática de ensino objetiva, essencialmente, a produção de "corpos submissos, exercitados e dóceis". A estrutura escolar, em nome da transmissão do conhecimento, termina por domesticar o aluno, diferenciar os bons dos maus, salientar e reforçar a imagem negativa dos rebeldes, 'problemáticos', estigmatizando uns e outros, recompensando os primeiros, punindo os segundos com a repetência e/ou a exclusão. O ensino do conteúdo torna-se em si um meio para tal.
O sistema de exames é a pedra angular deste edifício. A avaliação do aluno reduz-se à aplicação da prova, tornando-se um fim em si mesma. O objetivo principal, a produção e transmissão do conhecimento, é secundarizado. Sem alternativas, o aluno submete-se ao exame, memoriza o conteúdo para tirar uma boa nota. Mas, o que prova a prova senão apenas o ridículo fato de que ao aluno sabe fazê-la? Por acaso, o exame dado nestas condições prova o saber do aluno?
Na medida em que o aluno memoriza o conteúdo, a pressão do exame pressupõe que ele prove sua capacidade de decoreba. A passagem do conhecimento do professor ao aluno resume-se nisto: o aluno não é estimulado a produzir conhecimento, a amalgamar seu saber ao do professor. Nessa relação dialética entre o mestre e o discípulo não há saber ou ignorância absoluta. Confrontam-se dois tipos de saber: "o saber  do professor inacabado e a ignorância do aluno relativa". (Idem: 43)
Em nome da avaliação do aluno, concretiza-se o processo seletivo discriminatório: aos bons alunos os louros da vitória na louca competição darwiniana. E os maus alunos? Como recuperá-los e inserí-los em igualdades de condições numa sociedade onde os valores de solidariedade são a cada dia solapados? Seria esta uma preocupação da escola?
Não. Como no mundo extramuros escolar, a culpa do fracasso recai sobre o aluno, o rebelde indisciplinado e desinteressado pelos estudos. Se há fatores extraclasse que explicam e justificam sua situação, não é problema da escola. Neste modelo pedagógico, "as punições escolares não objetivam acabar ou 'recuperar' os infratores". (Idem: 41) Na verdade a escola termina por reforçar as tendências predominantes na sociedade. No fundo, o mais importante não é o aprendizado do aluno, mas que ele se enquadre aos padrões determinados pela escola e a sociedade.
Hoje, mais do que nunca, o sistema escolar se estrutura em função de uma idéia produtivista que envolve docente e discentes numa obsessiva competição: é preciso apresentar resultados. As exigências de títulos e a necessidade de se superar nos exames são cada vez mais intensas. Não há espaço para os 'incapazes', para os que não conquistam titulações. E, mesmo estes, vivem numa espécie de estado hobbesiano onde a lei do mais forte se impõe e os obrigam a derrotar seus oponentes, a ser o melhor.
A realidade comprova o que Tragtenberg escreveu há mais de nove anos:
"Qualquer escola se estrutura em função de uma quantidade de saber, medido em doses, administrado homeopaticamente. Os exames sancionam uma apropriação do conhecimento, um mau desempenho ocasional, um certo retardo que prova a incapacidade do aluno em apropriar-se do saber. Em face de um saber imobilizado, como nas Tábuas da Lei, só há espaço para humildade e mortificação. Na penitência religiosa só o trabalho salva, é redentor; portanto, o trabalho pedagógico só pode ser sado-masoquista". (Idem: 43-44)
Mesmo os professores críticos vêem-se aprisionados às normas burocráticas, na medida em que são obrigados a cumprir todo o ritual burocrático que permite ao aluno ascender na organização, isto é, passar de ano. Seu poder disciplinador também se manifesta através da aplicação dos exames, das ameaças diretas ou veladas da nota baixa.
Como afirma Tragtenberg, o professor é delegatário dessa ordem hierárquica junto aos estudantes. Como tal, expressa "o símbolo vivo" da dominação e "instrumento da submissão", cuja função é, principalmente, "impor a obediência". Tragtenberg, com o bom humor que lhe era característico, observa que nesta relação professor-aluno temos o encontro de dois tipos de adolescentes: "o adolescente aluno a quem ele deve educar e o adolescente reprimido que carrega consigo". (Idem: 43)
Também ele, o professor, é vítima de um trabalho mortificante. Com efeito, angustia-se no momento de corrigir as provas, diante da 'incapacidade' dos seus alunos em demonstrar que aprenderam a lição. O baixo aproveitamento dos alunos, traduzido em notas baixas nas provas empilhadas em sua mesa, desestimula e seu trabalho parece-lhe inútil. Paternalista, empurra seus alunos para a série seguinte; rigoroso, repete-os sem qualquer trauma de consciência – afinal, a culpa não é dele, mas do aluno que não soube ou não quis aprender.
Se para o aluno a mortificação pedagógica se traduz na ansiedade, no momento de fazer a prova (um vale tudo que inclui até mesmo rezas, crendices, efeitos colaterais físicos, a 'cola') e na espera do resultado, para o professor a redenção se expressa quando ele consegue finalmente se livrar do encargo de 'dar a nota', publicada em edital ou lida em sala de aula; quando, na disputa com seus colegas, consegue ascender internamente na organização escolar.
Como o aluno, que para redimir-se tem que ser aprovado no exame, o trabalho do professor perde a dedicação ao conhecer, o prazer de estudar, pesquisar, escrever, desenvolver as atividades docentes etc. Em seu lugar, impõe-se as necessidades de sobrevivência: somar mais pontos e exibir mais títulos, que permita-o suplantar seus concorrentes. Os meios se transformam em fins. Chega um momento em que dar aulas torna-se até mesmo um empecilho, um mal necessário, pois toma o tempo precioso que poderia ser dedicado às atividades que permitem acumular mais pontos na escala interna. Disto pode depender o seu mestrado, o seu doutorado.
Como vemos, a escola não constitui uma ilha no continente social em que se insere aluno e professor. Ambos incorporam os valores morais e ideológicos da sociedade burguesa. Ambos assimilam um modelo pedagógico que legitima e reproduz relações de dominação, o darwinismo social, o uso do saber como mais uma forma de poder opressivo etc.
Os próprios alunos se tornam agentes fomentadores deste sistema pedagógico. Imbuídos dos valores que enfatizam o individualismo e não a coletividade, a competição e não a solidariedade, a autoridade e não a liberdade, o saber formal-professoral e não o saber como algo socialmente construído, doutrinados e viciados desde a infância em procedimentos que ora legitimam a pedagogia-burocrática, ora são formas negativas de resistência, os alunos têm dificuldades de assumirem-se enquanto sujeitos ativos do processo educativo, em estabelecer uma relação não-autoritária com seus professores, em desenvolverem processos de aprendizagem que objetivem a produção do conhecimento e não apenas a memorização de conteúdos.
Entre a cruz e a espada, o professor crítico procura se equilibrar enfrentando as dificuldades inerentes ao sistema escolar e aquelas impostas por seus próprios alunos e colegas de trabalho. Neste ponto, o principal legado do mestre é o exemplo de que é possível ser e fazer diferente. Isto significa a busca constante da coerência entre o discurso (teoria) e o fazer (prática). A pedagogia libertária pressupõe esta atitude.
A expropriação do saber
A estrutura escolar fundada no vigiar e punir, na concessão de prêmios e castigos, emergiu historicamente como uma instituição diferenciada com a pretensão de monopolizar a aprendizagem e a integração social. A partir do momento que ela se impôs, o acesso à cultura passou a depender do consumo do saber formal (o ensino) ministrado em seu espaço físico e submetido ao cumprimento da legislação e das normas pedagógicas e burocráticas. Desde então, procede-se uma inversão que constitui seu traço distintivo: em vez de priorizar o aprendizado do indivíduo, enfatiza-se o sistema.
Como vimos, não se trata da adoção de um processo educacional que favoreça o livre desenvolvimento das potencialidades de quem aprende, mas sim de adaptá-lo e enquadrá-lo ao sistema, discipliná-lo.
Este projeto educativo, de feição autoritária e alienante, favorece o produtivismo e causa falsas identificações: "aprender com ser ensinado, valer para alguma coisa com ser reconhecido pelos títulos outorgados pelo sistema, ser inteligente com assistir às aulas, submeter-se a exames, o grau de cultura de um país com a porcentagem da população escolarizada". (TRAGTENBERG, 1980: 54)
Perdidos neste emaranhado de assemelhações, professores e alunos não questionam o sentido real do 'ensino' formalizado enquanto mercadoria a ser consumida (seja em escolas públicas ou privadas). Passam ao largo da simples questão: a quais interesses servem o ensino sistematizado? Este ensino satisfaz o objetivo que se propõe, qual seja, transmitir conhecimentos? Cumpre a tão propalada função de instrumento que permite ascensão social dos seus consumidores?
Analisado de um ponto de vista libertário, a resposta é negativa. Tragtenberg argumenta que "a quantidade de coisas de tal sistema impede o acesso é muito mais do que transmite; sob pretexto de eliminar a ignorância científica a substitui por uma ignorância titulada". Por outro lado, observa como a escola acentuadamente induz à universalização das particularidades dos valores, formas de pensar, sentir e agir dos que dominam. Os interesses das classes dominantes aparecem como sendo do conjunto da sociedade. "A esta falsa universalização contribuem não só o conteúdo do que é ensinado mas a forma, sua própria estrutura interna", enfatiza. (Idem)
Como isso ocorre na prática? Primeiro, pela delimitação da área do saber, o qual passa a ser o único legitimamente reconhecido pela sociedade. O saber, construído historicamente pela práxis coletiva e social, passa a ser identificado com o 'ensino' transmitido nos centros especializados.
Em segundo lugar, este conhecimento transforma-se em artigo de consumo. O conhecer não se dá mais pela experiência direta do educando, "mas pelo consumo dosificado de um produto elaborado e administrado na forma de programa". O objeto do aprender passa a ser determinado pelo grau de importância que os outros conferem, ou seja, alguém, que não é o educando, decide o que é "importante" para ensinar". (Idem)
Terceiro, o ato de aprender é substituído pela necessidade de memorizar para tirar boas notas. Os exames condensam em si o terrorismo ao qual o aluno está submetido, como em outras civilizações, representa uma espécie de rito de passagem. Os títulos são disputados objetos de consumo. Ir bem num exame, adquirir um título, significa muito mais do que simplesmente superar uma etapa na vida estudantil-profissional. Ascender em titulação pressupõe ter poder sobre os não titulados ou com títulos hierarquicamente inferiores. Os pares não são iguais: o doutor já olha de viés e com indisfarçável desdém o colega que só tem mestrado ou apenas graduação; seu título dá-lhe prerrogativas, privilégios e argumentos para se sobrepor ao colega em situações concretas (como a escolha de coordenadores de grupos de trabalho, participação em congressos, seminários etc.). Não importa como ele se tornou doutor nem a mediocridade disfarçada sob o título; importa apenas sua titulação.
Um quarto aspecto a considerar é a relação professor-aluno ou, como afirma Tragtenberg, o "seqüestro do conhecimento". Retomamos esta questão apenas para resgatar como o 'corpo professor' contribui para reproduzir a relação dominante-dominado. O corpo docente atua como um "estamento burocrático que, pretendendo monopolizar a transmissão do conhecimento – na realidade a seqüestra –, substitui-a pela "necessidade" da existência de si mesmo como "separado" do social". (Idem: 55)
Os alunos são apenas apêndices da sua atividade, às vezes indesejáveis, outras vezes suportáveis. O docente existe para si, seu conhecimento lhe basta, trata-se apenas de manter o fictício status de professor. Na realidade, é cada vez mais comum, mesmo na elite docente – o professor universitário – a angústia diante da queda acelerada do padrão de vida e da necessidade de vender sua força de trabalho a quem pagar mais, não importa se no setor público ou privado. Ostenta um padrão de consumo escorado no crédito e na especulação informal e oficial. Tudo isto amparando-se no puro simbolismo da autoridade do saber formal.
Por fim, devemos ter em conta tudo o que constitui a estrutura do ensino: horários, as estruturas dos cursos, o planejamento das disciplinas (deslocadas da realidade social e das necessidades efetivas dos alunos), a redução da pessoa à "condição de aluno", isto é, "matéria prima gratuita" cujo valor é proporcional ao tempo que ele permanecer na escola. O aluno diplomado e titulado se insere na sociedade ("mercado dos bens simbólicos") como mercadoria, um produto à venda sob a forma de assalariamento. (Idem: 55-56)
Enquanto técnico e especialista, ocupará lugares hierarquicamente definidos e desempenhará funções que, na maioria dos casos, contribuirá para a manutenção do status quo e a permanência das relações de exploração e de dominação. Em outras palavras, a democratização do ensino, a chamada escola cidadã, não supera o conteúdo de classe expressado neste processo nem muito menos a função do sistema escolar: reprodução do sistema social capitalista.
A expropriação do saber pelo sistema de ensino formal, resulta em sua progressiva racionalização enquanto mercadoria escolar. A realidade atual é farta de exemplos onde a concorrência interna, as parcerias etc., submetem o processo educativo à máxima da eficiência capitalista: trata-se, sob qualquer circunstância, de extrair o máximo rendimento com o menor custo. Em tempos de globalização, os recursos disponíveis tornam-se escassos – o que acentua a fabricação de projetos, a disputas por financiamentos – e reforçam-se os mecanismos de submissão do trabalho intelectual às exigências do capital.
A educação, transformada em mercadoria, submetida às leis do mercado, encontra-se longe de constituir 'capital humano'. Mesmo hoje quando várias vozes clamam por um ensino crítico, adaptado às novas exigências da revolução tecnológica, paradoxalmente, intensifica-se o que Tragtenberg denominou de 'taylorismo intelectual", qual seja:
a)     Submissão do trabalho intelectual às leis de reprodução do capital;
b)     Submissão à hierarquização social e do trabalho;
c)     Aquisição do hábito compulsivo de consumir títulos;
d)     Subordinação do individual e específico ao abstrato e genérico da "razão burocrática";
e)     Divisão do conhecimento em compartimentos estanques (em que pese a tão falada interdisciplinaridade).
É verdade que a universidade seguiu os passos da democratização – embora limitada –ocorrida no conjunto da sociedade. Até mesmo "conquistou" uma autonomia capenga. Mas, em sua essência, o "complô das belas almas", como dizia Tragtenberg, "recheadas de títulos acadêmicos, de doutorismo substituindo o bacharelismo, de uma nova pedantocracia, da produção de um saber a serviço do poder, seja ele de que espécie for", é de uma atualidade a toda prova. (TRAGTENBERG, 1990: 11)
Hoje, as "belas almas" conspiram sobre a melhor forma de abocanhar os recursos internos, de como garantir financiamentos de agências governamentais, como garantir as parcerias, isto é, "conquistar" o capital privado, como partilhar do dinheiro do FAT. As "belas almas" tentam nos fazer crer que a universidade abandonou seu conteúdo classista – aliás, alguns mais extremados afirmam mesmo que as classes desapareceram – e que constituiu-se numa instituição crítica.
Mas, por acaso superamos o "saber institucionalizado", este "saber burocratizado" apresentado como o único que é legítimo? A resposta pode ser buscada na política dos governos estaduais e federais em relação ao ensino superior público e gratuito – política que, devemos assumir, encontra vários adeptos entre docentes e discentes. Façamos a corte ao capital privado! Elaboremos projetos que sejam atraentes e rentáveis! Sejamos técnicos e apolíticos! Busquemos parceiros! Cobremos mensalidades nos cursos de especialização e pós-graduação stricto sensu! E porque não uma 'pequena taxa' a ser cobrada dos graduandos? Afinal, boa parte não é da classe média? Estejamos dispostos, como Fausto, a vender a própria alma! Tudo em nome da defesa do ensino público e da comunidade.
Tragtenberg afirma que o conhecimento formal universitário exprime "a concepção capitalista de saber" e que, na academia, "se constitui em capital e toma a forma nos hábitos universitários". (Idem: 13) Prisioneiros das armadilhas que criamos, nosso pensamento e ação são balizados pelos mesmos valores burgueses que criticamos.
No período ditatorial, os intelectuais despiam-se de qualquer responsabilidade política e social em nome da "segurança nacional", ou seja, da sua segurança pessoal. São raros os que arriscaram seus títulos e a possibilidade de ascenderem na carreira. Hoje, não temos mais as peias da ditadura militar. Ninguém precisa colocar sua cabeça a prêmio. Pelo contrário, a corrida é justamente pelo prêmio.
Ontem, "a política das "panelas" acadêmicas de corredor universitário e a publicação a qualquer preço de um texto qualquer se (constituía) no metro para medir o sucesso universitário". Ontem, a maioria dos congressos acadêmicos servia de "mercado humano", onde entravam "em contato pessoas e cargos acadêmicos a serem preenchidos, parecidos aos encontros entre gerentes de hotel, em que se trocam informações sobre inovações técnicas, revê-se velhos amigos e se estabelecem contatos comerciais". (Idem: 15)
Essa realidade mudou? Hoje, como ontem, nos seminários, colóquios etc., financiados com o dinheiro público ou não, paga-se para apresentar trabalhos a si mesmos ou aos amigos, que se revezam entre falantes e ouvintes. Da mesma forma, o imperativo da quantidade: não interessa o conteúdo e a qualidade do que se publica, mas sim quantos pontos vale; também não importa se alguém lerá o artigo; de preferência que seja publicado em algum país vizinho, pois as revistas internacionais garantem uma pontuação maior. Transformemos aulas em palestras! Nos insinuemos aos nossos amigos para que nos convidem a proferir palestras! Façamos acordos de corredores! É preciso fazer currículo a qualquer custo!
Eis a "delinqüência acadêmica" revitalizada!
A alternativa pedagógica libertária
Não sejamos pessimistas. Se a realidade atual exacerba os elementos críticos da pedagogia burocrática apontados por Tragtenberg, ainda é possível pensar e agir de forma diferenciada. O mestre nos oferece as pistas para uma nova pedagogia fundada na solidariedade, na autonomia e liberdade dos indivíduos e na autogestão. Trata-se da reapropriação do saber pelos trabalhadores, de desnudá-lo e resgatar seu caráter social e coletivo. Não mais o saber formal ingressado pela instituição escolar: a própria escola precisa ser transformada.
De fato, o educador crítico se encontra num dilema: o meio no qual desenvolve sua atividade é plenamente influenciado por valores e idéias que ele combate, mas que também incorpora; ele próprio é fruto deste meio. Como superar esta contradição? Bakunin, um dos pensadores que influencia Tragtenberg, põe esta questão nos seguintes termos:
"Como iriam (professores e pais) dar aos alunos o que eles próprios não têm? Só com o exemplo é que se prega bem a moral, e, ao ser a moral socialista contrária à moral atual, os professores, necessariamente dominados por esta, fariam diante dos alunos exatamente o contrário do que estariam pregando. De sorte que a educação socialista é impossível nas escolas assim como nas famílias atuais". (MORIYÓN, 1989: 49)
Parece que o impasse só pode ser superado pela criação de outro meio social, ou seja, "o problema mais importante é o da emancipação econômica", a qual engendra a emancipação política, moral e intelectual. Bakunin, ironizando os "bons socialistas burgueses" que defendem a educação do povo como condição para a sua emancipação, afirma: "Primeiro vamos emancipá-lo e ele se educará por si mesmo". (Idem)
O Congresso Anarquista de Bruxelas (1867), adotou uma resolução que aponta uma solução mediadora, sugerida por Bakunin:
"Reconhecendo que no momento é impossível organizar um ensino racional, o Congresso convida as diferentes seções a estabelecer aulas públicas seguindo um programa de ensino científico, profissional e produtivo, isto é, ensino integral, para remediar o mais possível a insuficiente educação que os operários recebem. E naturalmente a redução das horas de trabalho é considerada como uma condição prévia indispensável". (Idem)
Aparentemente, estamos diante de uma encruzilhada histórica. Se a educação libertária não tem espaço para frutificar na sociedade capitalista, então só nos resta esperar a revolução. Não nos enganemos: a fala de Bakunin corresponde muito mais às necessidades colocadas pela realidade do movimento operário no século XIX e, principalmente, pela estratégia inerente ao seu pensamento.
Também Ferrer, outro pedagogo que influenciou Tragtenberg, se vê diante de duas opções: renovar a escola tradicional ou fundar novas escolas. Ferrer conclui pela criação da Escola Moderna, baseada no ensino científico e racional oposto ao ensino religioso e controlado pelo Estado. Num tempo em que o Estado não se opõe à educação das massas, antes reconhece sua necessidade, parece contraditório defender uma escola não-estatal. O que motiva sua atitude é a compreensão de que os governos estimulam a educação apenas enquanto ela corresponder à formação de mão-de-obra para a indústria. (como na atualidade, as inovações tecnológicas exigem uma nova formação escolar dos trabalhadores).
Por outro lado, sua opção está estritamente vinculada à realidade econômica, social e política da Espanha: atrasada, econômica e culturalmente, onde a Igreja, vinculada ao Estado, cumpre a função de organizar a hegemonia cultural e intelectual e o Estado encontra-se anexado à nobreza (o que Weber denominou de "dominação hierocrática"); uma Espanha, enfim, obscurantista.
Os libertários brasileiros do início do século também enfrentaram o mesmo dilema. Com efeito, um dos principais obstáculos para a divulgação das idéias libertárias era precisamente o baixo nível de instrução do operariado brasileiro. Só uma minoria alfabetizada lia as diversas publicações operárias da época. Os anarquistas lançaram-se então à tarefa de instruir os operários. Críticos à educação burguesa estatal e religiosa, assumiram os preceitos pedagógicos de Ferrer e fundaram suas próprias escolas, mantidas pelos trabalhadores, criaram Centros de Cultura e inclusive a Universidade Popular.
Também eles perceberam que o espaço formal onde se processava o ensino era impeditivo à educação libertária. Como Bakunin, acentuaram a necessidade da revolução, pois somente esta poderia transformar e universalizar a educação. Este traço libertário é, a nosso ver, positivo, na medida em que não outorga à educação um papel redentor, deixando evidente seus limites quando se pensa na transformação integral da sociedade. A educação, embora cumpra uma função de fundamental importância, não substitui a dinâmica social e as respectivas formas de organização que os trabalhadores constroem.
Devemos, portanto, compreender tais manifestações de repúdio absoluto ao espaço escolar dentro de determinadas circunstâncias históricas. Do contrário, seremos obrigados a concordar que a escola é mero 'aparelho ideológico' do capital. Reconhecemos que a educação crítica se alimenta do próprio espaço criticado. A escola interage com a sociedade, incorporando tanto seus aspectos negativos como positivos. A própria realidade na qual o professor desenvolve seu trabalho intelectual – enquanto assalariado, submetido à hierarquia e espremido pelas exigências burocráticas –, induz à contestação, à crítica. Como ressalta Tragtenberg, o mesmo movimento que reforça o papel do professor e da educação enquanto reprodutores da ordem social vigente, "cria condições para a emergência de uma pedagogia antiburocrática". (TRAGTENBERG, 1980: 57)
Esta pedagogia exige a união indissolúvel entre trabalho e pesquisa, entre a teoria e a prática. Ela representa o resgate e a reafirmação dos princípios educacionais defendidos pela Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT): "uma educação 'integral e igualitária' como condição de auto-emancipação dos trabalhadores e portanto de toda a sociedade". Tragtenberg esclarece aos espíritos incautos que esta 'educação integral' não requer a "introdução de artes manuais nas academias, nem de parcializações acadêmicas, trata-se de definir temas a partir de centros de interesses comuns e a estruturação da apreensão do conhecimento se dar como conseqüência deste processo". (Idem)
Trata-se de inverter a ordem dos procedimentos pedagógicos. Em vez de se colocar como tarefa "dar um curso", por que não se perguntar: "em que medida o saber acumulado e formulado pelo professor tem chance de tornar-se o saber do aluno?" (TRAGTENBERG, 1985: 45)
Para que isto ocorra é preciso contrapor à pedagogia burocrática uma pedagogia crítica fundada na:
·         Autogestão: gestão da educação pelos diretamente envolvidos no processo educacional e a "devolução do processo de aprendizagem às comunidades onde o indivíduo se desenvolve (bairro, local de trabalho)";
·         Autonomia do indivíduo: "O indivíduo não é um meio: é fim em si mesmo. No universo das coisas (mercadorias) tudo tem um preço, porém só o homem tem uma dignidade. Negação total de prêmios ou punições";
·         Solidariedade: crítica permanente de todas as formas educativas que estimulam ou fundamentem-se na competição; crítica a todas as normas pedagógicas autoritárias. (TRAGTENBERG, 1980: 58)
Esta proposta pedagógica pressupõe ainda: educação gratuita para todos; superação da divisão dos professores em categorias; liberdade de organização para os trabalhadores da educação.
Em suma, o objetivo desta educação crítica é: "Evitar a emergência de "novos patrões" e "dirigidos", como "vanguardas", "elites" e "intelectuais" carismaticamente qualificados ou não, criando estruturas onde a ação se faça pela concordância de todos e não pela imposição de cima para baixo". (Idem)
Um modelo prático desta pedagogia libertária é a experiência do Sindicato do Ensino da Espanha (ligado à Confederação Nacional do Trabalho). Este sindicato desenvolveu uma campanha contra o sistema de exames, questionando os mecanismos de avaliação e a titulação enquanto fonte de privilégios. Seus objetivos são:
a)     Devolver a educação à sociedade;
b)      Desenvolver a autogestão;
c)      Combater todo tipo de autoritarismo e produzir uma prática pedagógica onde todos são iguais em direitos e deveres;
d)      Fundir o trabalho intelectual com o trabalho manual;
e)      Superar o dualismo professor-aluno.
Este sindicato incorpora todos os envolvidos no processo educativo (docentes, discentes, moradores, pais). Funciona através da democracia direta (abolição da hierarquia, delegação revogável); com responsabilização coletiva pelas tarefas e uma estrutura federativa (com os grupo autônomos ligados entre si pela solidariedade, sendo as assembléias gerais fóruns de decisões unitárias). Seu princípio é: "A libertação dos trabalhadores tem que ser obra dos próprios trabalhadores".
Conclusão
A importância de um pensamento político-pedagógico reside não apenas naquilo que seu protagonista conseguiu legar para as gerações futuras através da sua obra e, principalmente, da sua práxis. Aqueles que tiveram a feliz oportunidade de conviver com o mestre – seus alunos, orientandos, colegas de profissão, sindicalistas, trabalhadores em geral etc. – são a comprovação viva da sua influência. O próprio Tragtenberg, com a simplicidade que lhe era peculiar, atesta tal ascendência em seu 'Memorial'.[1] Com efeito, ele conseguiu fecundar a obra de intelectuais reconhecidos, o que significou a mudança de paradigmas.
Qual a extensão desta influência? Quantos educadores por este Brasil afora não foram afetados positivamente pelo convívio pessoal ou através da leitura da sua obra crítica? Questão difícil de responder, mesmo porque um pensamento fecundo não somente sobrevive ao seu criador como permanece atuando silenciosamente sobre os corações e mentes dos seus discípulos e daqueles que preocupam-se em desenvolver uma crítica pedagógica da sua própria ação.
Porém, não nos iludamos. Estas questões nunca fariam parte do rol das preocupações do mestre. A própria relação mestre-discípulo não pode ser compreendida se restrita às formalidades acadêmicas: a definição 'mestre' expressa simplesmente o respeito e estima, a gratidão própria do indivíduo que se vê no outro e que reconhece neste a autoridade legítima e natural. Esse reconhecer-se no outro pode fundar-se tanto numa relação de dominação, onde o mestre se sobrepõe de tal maneira ao discípulo que impede-o de desenvolver suas potencialidades, quanto numa relação dialética mediada pelo diálogo e respeito ao conhecimento do aluno.
O mestre tanto pode ser um obstáculo ao livre desenvolvimento crítico da formação do discípulo, como pode representar uma espécie de âncora na qual este se apóia para alçar seus próprios vôos e, se possível, ultrapassar o próprio mestre. Gusdorf, nos fornece um exemplo ilustrativo, citando o filósofo Hegel o seu discípulo Karl Mark:
"Os bons alunos de Hegel recitaram a lição de Hegel, simples repetidores do espírito absoluto (...) Mas os melhores alunos de Hegel acabaram por se levantar contra o ídolo, encontrando a sua própria verdade na denúncia de qualquer pretensão totalitária à verdade". (1995: 103)
Neste exemplo, a superação da relação desigual do mestre com o discípulo deveu-se muito mais às qualidades do segundo. Sabemos o quanto é comum, principalmente em política, que os discípulos, cegos seguidores de ideologias congeladas no tempo, contentem-se em venerar ícones e despojem-se de qualquer referência crítica a um pensamento sacralizado, o qual, em geral, fruto das diversas interpretações, transformaram-se em sua antítese.
Neste modelo pedagógico, o bom aluno não deve ter a pretensão de questionar ou mesmo ultrapassar o professor: se Hegel anuncia o fim da história e da filosofia, seu aluno deve apenas satisfazer-se em repeti-lo ou, se voltar atrás, será somente no sentido de "justificar a inutilidade de qualquer reflexão futura". Ontem, como hoje, "o fruto seco consola-se por ser fruto; pois, se o mestre disse tudo, não há mais nada a dizer senão aquilo que o mestre disse". (Idem: 125)
Bem diferente é a relação professor-aluno quando se trata de uma pedagogia libertária. A práxis do mestre interage com as certezas e dúvidas do discípulo, um diálogo fundado na negação do autoritarismo e do discurso do intelectual prepotente e 'competente' que se erige à divindade de um semideus do saber.
A pedagogia libertária põe em evidência precisamente o problema da autoridade. Neste sentido, Tragtenberg resgata a tradição autogestionária já presente na I Internacional, (AIT). Em seus escritos, há a referência constante aos marinheiros de Kronstadt, esmagados pelo exército vermelho liderado por Trotsky; à revolução camponesa maknovista na Ucrânia, também derrotada pelos bolcheviques. Esta alusão sempre é acompanhada da defesa da liberdade como valor e da crítica à burocracia – "essa desgraça do nosso século" (TRAGTENBERG, 1991:37).
Os autores que Tragtenberg se apóia para fundamentar teoricamente sua militância libertária incluem desde os clássicos do anarquismo e MARX, passando pelos marxistas heterodoxos (GORTER, MAKAYA, BORDIGA)[2], pela crítica antiburocrática de KOLLONTAI e LUXEMBURGO, autores como FERRER, LOBROT , WEBER e até mesmo o TROTSKY crítico do leninismo que muitos trotiskistas fingem desconhecer. Esta gama variada de suporte teórico longe de caracterizá-lo como eclético, exime-o de tal imputação: Tragtenberg dialoga com todos, é um exemplo do exercício da liberdade intelectual, da tolerância e respeito às idéias divergentes e, por outro lado, testemunha sua erudição.
Neste debruçar-se sobre obras e autores tão diversos, Tragtenberg traça um fio de continuidade, destacando-se os seguintes pontos em comum: a defesa da LIBERDADE, da AUTO-ORGANIZAÇÃO dos trabalhadores; a crítica `a BUROCRACIA, ao vanguardismo e ao fetichismo do PARTIDO; a valorização do SABER dos trabalhadores e da DEMOCRACIA pela base; a SOLIDARIEDADE.
Tragtenberg firma-se pelo exemplo de coerência entre o discurso e a prática. Seu relacionamento com os sindicalistas combativos, as oposições sindicais, os trabalhadores e seus colegas de trabalho e os estudante comprova-o. Seus artigos na coluna "Batente" e em outros jornais revelam uma permanente valorização do conhecimento operário, uma constante disposição, rara entre nossos intelectuais, de 'dar uma força', de servi-lo. Seu carinho e dedicação aos intelectuais orgânicos dos trabalhadores é outra prova viva de uma pedagogia fundada na verdade e na convicção de que os indivíduos são capazes de se apropriarem do saber.
Tragtenberg nos legou uma alternativa. Basta romper o conformismo e tentar! É preciso opor-se à "delinqüência acadêmica". Afinal, é na instituição universitária que formam-se aqueles que são – ou serão – os educadores dos nosso filhos. A transformação social pressupõe que o educador seja educado. As escolas precisam ser algo mais do que "depósitos de alunos", ou como diria Lima Barreto, "Cemitérios de Vivos". (TRAGTENBERG, 1990: 16)[3]
Em 1979, Tragtenberg combatia pela "criação de canais de participação real" dos professores, estudantes e funcionários como forma de opor-se à "esclerose burocrática" da instituição universitária. Vinte anos depois, sua fala permanece atual:
"A autogestão pedagógica teria o mérito de devolver à universidade um sentido de existência, qual seja: a definição de um aprendizado fundado numa motivação participativa e não no decorar determinados "clichês", repetidos semestralmente nas provas que nada provam, nos exames que nada examinam, mesmo porque o aluno sai da universidade com a sensação de  estar mais velho, com um dado a mais: o diploma acreditativo que em si perde valor na medida em que perde sua raridade".(Idem: 16)
Talvez o que mudou tenha sido simplesmente a periodicidade das provas e exames. Ora, é preciso ir além. Nossas crianças e alunos – universitários ou não – merecem e precisam que perseveremos nesta senda.
Ao resgatarmos esse ideal pedagógico libertário prestamos nossa sincera homenagem e abraçamos sua utopia da maneira que aprendemos: sem culto à personalidade, com a liberdade de divergir e a possibilidade de superar-se e, acima de tudo, sem qualquer pretensão à ilusão da neutralidade diante dos desafios concretos que temos em nosso caminhar.


* Publicado originalmente na Revista Lutas Sociais, 6, 2º semestre de 1999, pp. 07-20, do Núcleo de Estudos de Ideologia e Lutas Sociais (NEILS) e Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC/SP.
[1] Escrito em 1990, por ocasião de seu concurso para titular na Faculdade de Educação da Unicamp. Ver bibliografia.
[2] Tragtenberg define o marxismo heterodoxo como uma “leitura de Marx não regida pelos moldes ‘ortodoxos’ definidos pelo chamado ‘marxismo-leninismo-stalinismo’ ou ‘marxismo-leninismo-trotskismo’”. Um marxismo que questiona “os dogmas aceitos acriticamente pelos militantes e teóricos dialéticos, especialmente a noção de ‘ditadura do proletariado’; uma heterodoxia que põe em xeque  ‘a noção de partido hegemônico’.” (Tragtenberg, 1981: 07)
[3] Trata-se do artigo “A delinqüência acadêmica”, publicado em Educação e Sociedade, 3, 1979. Reproduzido em Tragtenberg (1990).
 
Resumo:
Nosso objetivo é resgatar o pensamento político-pedagógico de Maurício Tragtenberg. De um lado, a crítica incisiva que desvenda o modelo pedagógico burocrático fundado na vigilância e na punição, na relação de dominação, no saber formal transformado em mercadoria de consumo, uma pedagogia que predomina na maioria das nossas escolas e universidades. De outro, o itinerário de uma alternativa pedagógica libertária, recuperada e sintetizada na práxis do educador contemporâneo. No final do percurso, a certeza da sua atualidade.

O modelo pedagógico-burocrático: vigiar e punir
A peculiaridade da pedagogia libertária se expressa pelo questionamento de toda e qualquer relação de poder estabelecida no processo educativo e das estruturas que proporcionam as condições para que estas relações se reproduzam no cotidiano das instituições escolares. É de conhecimento geral, a tese de que a interação entre os diversos personagens que atuam no espaço escolar reproduzem as relações sociais predominantes na sociedade.
Deste ponto de vista, Tragtenberg se coloca a seguinte questão: "conhecer como essas relações se processam e qual o pano de fundo de idéias e conceitos que permitem que elas se realizem de fato". Sua análise busca apreender como a escola atua enquanto "poder disciplinador" pois, conforme afirma o filósofo Michel Foucault, "a escola é o espaço onde o poder disciplinar produz saber". (TRAGTENBERG, 1985: 40)
Como surge esta situação? As origens desta instituição disciplinar remonta às necessidades de controle da força de trabalho e, simultaneamente, das exigências técnicas administrativas produzidas pelo avanço da revolução industrial. Não por acaso, os métodos de controle do operário assemelham-se àqueles utilizados no âmbito do espaço escolar: delimitação e enquadramento do tempo e da forma como este deve ser utilizado; e, domínio dos processos, gestos, atitudes e comportamentos. (estes métodos foram ainda mais intensificados com a adoção do taylorismo).
A fusão de um saber, constantemente acumulado e renovado pela própria natureza da instituição escolar, com as técnicas disciplinadoras-burocráticas herdados dos presídios avultam os efeitos da concentração do poder de dominação e controle. A escola, através do saber, aperfeiçoa os meios de controle, podendo dar-se ao luxo de dispensar o recurso à força. A própria prática de ensino pedagógica-burocrática permite-o, na medida em que reduz o aluno ao papel de mero receptáculo de conhecimento, fixa uma hierarquia rígida e burocrática na qual o principal interessado encontra-se numa posição submissa e desenvolve meios para manter o aluno sob vigilância permanente (diário de classe, boletins individuais de avaliação, uso de uniformes modelos, disposição das carteiras na sala de aula, culto à obediência, à superioridade do professor etc.).
Nesta estrutura escolar, o poder de punir é legitimado e concebido como natural. Como salienta Tragtenberg: "Na escola, ser observado, olhado, contado detalhadamente passa a ser um meio de controle, de dominação, um método para documentar individualidades. A criação desse campo documentário permitiu a entrada do indivíduo no campo do saber e, logicamente, um novo tipo de poder emergiu sobre os corpos". (Idem)
A prática de ensino resume-se, então, à transmissão de um conhecimento 'superior' (no sentido de estar sob domínio professoral) e à adoção de técnicas de memorização de conteúdos. Um conhecimento, portanto, formal e selecionado à revelia dos diretamente interessados e passível de questionamento quanto à sua própria utilidade.
Tudo isto pode ser resumido em: vigiar e punir. De fato, esta prática de ensino objetiva, essencialmente, a produção de "corpos submissos, exercitados e dóceis". A estrutura escolar, em nome da transmissão do conhecimento, termina por domesticar o aluno, diferenciar os bons dos maus, salientar e reforçar a imagem negativa dos rebeldes, 'problemáticos', estigmatizando uns e outros, recompensando os primeiros, punindo os segundos com a repetência e/ou a exclusão. O ensino do conteúdo torna-se em si um meio para tal.
O sistema de exames é a pedra angular deste edifício. A avaliação do aluno reduz-se à aplicação da prova, tornando-se um fim em si mesma. O objetivo principal, a produção e transmissão do conhecimento, é secundarizado. Sem alternativas, o aluno submete-se ao exame, memoriza o conteúdo para tirar uma boa nota. Mas, o que prova a prova senão apenas o ridículo fato de que ao aluno sabe fazê-la? Por acaso, o exame dado nestas condições prova o saber do aluno?
Na medida em que o aluno memoriza o conteúdo, a pressão do exame pressupõe que ele prove sua capacidade de decoreba. A passagem do conhecimento do professor ao aluno resume-se nisto: o aluno não é estimulado a produzir conhecimento, a amalgamar seu saber ao do professor. Nessa relação dialética entre o mestre e o discípulo não há saber ou ignorância absoluta. Confrontam-se dois tipos de saber: "o saber  do professor inacabado e a ignorância do aluno relativa". (Idem: 43)
Em nome da avaliação do aluno, concretiza-se o processo seletivo discriminatório: aos bons alunos os louros da vitória na louca competição darwiniana. E os maus alunos? Como recuperá-los e inserí-los em igualdades de condições numa sociedade onde os valores de solidariedade são a cada dia solapados? Seria esta uma preocupação da escola?
Não. Como no mundo extramuros escolar, a culpa do fracasso recai sobre o aluno, o rebelde indisciplinado e desinteressado pelos estudos. Se há fatores extraclasse que explicam e justificam sua situação, não é problema da escola. Neste modelo pedagógico, "as punições escolares não objetivam acabar ou 'recuperar' os infratores". (Idem: 41) Na verdade a escola termina por reforçar as tendências predominantes na sociedade. No fundo, o mais importante não é o aprendizado do aluno, mas que ele se enquadre aos padrões determinados pela escola e a sociedade.
Hoje, mais do que nunca, o sistema escolar se estrutura em função de uma idéia produtivista que envolve docente e discentes numa obsessiva competição: é preciso apresentar resultados. As exigências de títulos e a necessidade de se superar nos exames são cada vez mais intensas. Não há espaço para os 'incapazes', para os que não conquistam titulações. E, mesmo estes, vivem numa espécie de estado hobbesiano onde a lei do mais forte se impõe e os obrigam a derrotar seus oponentes, a ser o melhor.
A realidade comprova o que Tragtenberg escreveu há mais de nove anos:
"Qualquer escola se estrutura em função de uma quantidade de saber, medido em doses, administrado homeopaticamente. Os exames sancionam uma apropriação do conhecimento, um mau desempenho ocasional, um certo retardo que prova a incapacidade do aluno em apropriar-se do saber. Em face de um saber imobilizado, como nas Tábuas da Lei, só há espaço para humildade e mortificação. Na penitência religiosa só o trabalho salva, é redentor; portanto, o trabalho pedagógico só pode ser sado-masoquista". (Idem: 43-44)
Mesmo os professores críticos vêem-se aprisionados às normas burocráticas, na medida em que são obrigados a cumprir todo o ritual burocrático que permite ao aluno ascender na organização, isto é, passar de ano. Seu poder disciplinador também se manifesta através da aplicação dos exames, das ameaças diretas ou veladas da nota baixa.
Como afirma Tragtenberg, o professor é delegatário dessa ordem hierárquica junto aos estudantes. Como tal, expressa "o símbolo vivo" da dominação e "instrumento da submissão", cuja função é, principalmente, "impor a obediência". Tragtenberg, com o bom humor que lhe era característico, observa que nesta relação professor-aluno temos o encontro de dois tipos de adolescentes: "o adolescente aluno a quem ele deve educar e o adolescente reprimido que carrega consigo". (Idem: 43)
Também ele, o professor, é vítima de um trabalho mortificante. Com efeito, angustia-se no momento de corrigir as provas, diante da 'incapacidade' dos seus alunos em demonstrar que aprenderam a lição. O baixo aproveitamento dos alunos, traduzido em notas baixas nas provas empilhadas em sua mesa, desestimula e seu trabalho parece-lhe inútil. Paternalista, empurra seus alunos para a série seguinte; rigoroso, repete-os sem qualquer trauma de consciência – afinal, a culpa não é dele, mas do aluno que não soube ou não quis aprender.
Se para o aluno a mortificação pedagógica se traduz na ansiedade, no momento de fazer a prova (um vale tudo que inclui até mesmo rezas, crendices, efeitos colaterais físicos, a 'cola') e na espera do resultado, para o professor a redenção se expressa quando ele consegue finalmente se livrar do encargo de 'dar a nota', publicada em edital ou lida em sala de aula; quando, na disputa com seus colegas, consegue ascender internamente na organização escolar.
Como o aluno, que para redimir-se tem que ser aprovado no exame, o trabalho do professor perde a dedicação ao conhecer, o prazer de estudar, pesquisar, escrever, desenvolver as atividades docentes etc. Em seu lugar, impõe-se as necessidades de sobrevivência: somar mais pontos e exibir mais títulos, que permita-o suplantar seus concorrentes. Os meios se transformam em fins. Chega um momento em que dar aulas torna-se até mesmo um empecilho, um mal necessário, pois toma o tempo precioso que poderia ser dedicado às atividades que permitem acumular mais pontos na escala interna. Disto pode depender o seu mestrado, o seu doutorado.
Como vemos, a escola não constitui uma ilha no continente social em que se insere aluno e professor. Ambos incorporam os valores morais e ideológicos da sociedade burguesa. Ambos assimilam um modelo pedagógico que legitima e reproduz relações de dominação, o darwinismo social, o uso do saber como mais uma forma de poder opressivo etc.
Os próprios alunos se tornam agentes fomentadores deste sistema pedagógico. Imbuídos dos valores que enfatizam o individualismo e não a coletividade, a competição e não a solidariedade, a autoridade e não a liberdade, o saber formal-professoral e não o saber como algo socialmente construído, doutrinados e viciados desde a infância em procedimentos que ora legitimam a pedagogia-burocrática, ora são formas negativas de resistência, os alunos têm dificuldades de assumirem-se enquanto sujeitos ativos do processo educativo, em estabelecer uma relação não-autoritária com seus professores, em desenvolverem processos de aprendizagem que objetivem a produção do conhecimento e não apenas a memorização de conteúdos.
Entre a cruz e a espada, o professor crítico procura se equilibrar enfrentando as dificuldades inerentes ao sistema escolar e aquelas impostas por seus próprios alunos e colegas de trabalho. Neste ponto, o principal legado do mestre é o exemplo de que é possível ser e fazer diferente. Isto significa a busca constante da coerência entre o discurso (teoria) e o fazer (prática). A pedagogia libertária pressupõe esta atitude.
A expropriação do saber
A estrutura escolar fundada no vigiar e punir, na concessão de prêmios e castigos, emergiu historicamente como uma instituição diferenciada com a pretensão de monopolizar a aprendizagem e a integração social. A partir do momento que ela se impôs, o acesso à cultura passou a depender do consumo do saber formal (o ensino) ministrado em seu espaço físico e submetido ao cumprimento da legislação e das normas pedagógicas e burocráticas. Desde então, procede-se uma inversão que constitui seu traço distintivo: em vez de priorizar o aprendizado do indivíduo, enfatiza-se o sistema.
Como vimos, não se trata da adoção de um processo educacional que favoreça o livre desenvolvimento das potencialidades de quem aprende, mas sim de adaptá-lo e enquadrá-lo ao sistema, discipliná-lo.
Este projeto educativo, de feição autoritária e alienante, favorece o produtivismo e causa falsas identificações: "aprender com ser ensinado, valer para alguma coisa com ser reconhecido pelos títulos outorgados pelo sistema, ser inteligente com assistir às aulas, submeter-se a exames, o grau de cultura de um país com a porcentagem da população escolarizada". (TRAGTENBERG, 1980: 54)
Perdidos neste emaranhado de assemelhações, professores e alunos não questionam o sentido real do 'ensino' formalizado enquanto mercadoria a ser consumida (seja em escolas públicas ou privadas). Passam ao largo da simples questão: a quais interesses servem o ensino sistematizado? Este ensino satisfaz o objetivo que se propõe, qual seja, transmitir conhecimentos? Cumpre a tão propalada função de instrumento que permite ascensão social dos seus consumidores?
Analisado de um ponto de vista libertário, a resposta é negativa. Tragtenberg argumenta que "a quantidade de coisas de tal sistema impede o acesso é muito mais do que transmite; sob pretexto de eliminar a ignorância científica a substitui por uma ignorância titulada". Por outro lado, observa como a escola acentuadamente induz à universalização das particularidades dos valores, formas de pensar, sentir e agir dos que dominam. Os interesses das classes dominantes aparecem como sendo do conjunto da sociedade. "A esta falsa universalização contribuem não só o conteúdo do que é ensinado mas a forma, sua própria estrutura interna", enfatiza. (Idem)
Como isso ocorre na prática? Primeiro, pela delimitação da área do saber, o qual passa a ser o único legitimamente reconhecido pela sociedade. O saber, construído historicamente pela práxis coletiva e social, passa a ser identificado com o 'ensino' transmitido nos centros especializados.
Em segundo lugar, este conhecimento transforma-se em artigo de consumo. O conhecer não se dá mais pela experiência direta do educando, "mas pelo consumo dosificado de um produto elaborado e administrado na forma de programa". O objeto do aprender passa a ser determinado pelo grau de importância que os outros conferem, ou seja, alguém, que não é o educando, decide o que é "importante" para ensinar". (Idem)
Terceiro, o ato de aprender é substituído pela necessidade de memorizar para tirar boas notas. Os exames condensam em si o terrorismo ao qual o aluno está submetido, como em outras civilizações, representa uma espécie de rito de passagem. Os títulos são disputados objetos de consumo. Ir bem num exame, adquirir um título, significa muito mais do que simplesmente superar uma etapa na vida estudantil-profissional. Ascender em titulação pressupõe ter poder sobre os não titulados ou com títulos hierarquicamente inferiores. Os pares não são iguais: o doutor já olha de viés e com indisfarçável desdém o colega que só tem mestrado ou apenas graduação; seu título dá-lhe prerrogativas, privilégios e argumentos para se sobrepor ao colega em situações concretas (como a escolha de coordenadores de grupos de trabalho, participação em congressos, seminários etc.). Não importa como ele se tornou doutor nem a mediocridade disfarçada sob o título; importa apenas sua titulação.
Um quarto aspecto a considerar é a relação professor-aluno ou, como afirma Tragtenberg, o "seqüestro do conhecimento". Retomamos esta questão apenas para resgatar como o 'corpo professor' contribui para reproduzir a relação dominante-dominado. O corpo docente atua como um "estamento burocrático que, pretendendo monopolizar a transmissão do conhecimento – na realidade a seqüestra –, substitui-a pela "necessidade" da existência de si mesmo como "separado" do social". (Idem: 55)
Os alunos são apenas apêndices da sua atividade, às vezes indesejáveis, outras vezes suportáveis. O docente existe para si, seu conhecimento lhe basta, trata-se apenas de manter o fictício status de professor. Na realidade, é cada vez mais comum, mesmo na elite docente – o professor universitário – a angústia diante da queda acelerada do padrão de vida e da necessidade de vender sua força de trabalho a quem pagar mais, não importa se no setor público ou privado. Ostenta um padrão de consumo escorado no crédito e na especulação informal e oficial. Tudo isto amparando-se no puro simbolismo da autoridade do saber formal.
Por fim, devemos ter em conta tudo o que constitui a estrutura do ensino: horários, as estruturas dos cursos, o planejamento das disciplinas (deslocadas da realidade social e das necessidades efetivas dos alunos), a redução da pessoa à "condição de aluno", isto é, "matéria prima gratuita" cujo valor é proporcional ao tempo que ele permanecer na escola. O aluno diplomado e titulado se insere na sociedade ("mercado dos bens simbólicos") como mercadoria, um produto à venda sob a forma de assalariamento. (Idem: 55-56)
Enquanto técnico e especialista, ocupará lugares hierarquicamente definidos e desempenhará funções que, na maioria dos casos, contribuirá para a manutenção do status quo e a permanência das relações de exploração e de dominação. Em outras palavras, a democratização do ensino, a chamada escola cidadã, não supera o conteúdo de classe expressado neste processo nem muito menos a função do sistema escolar: reprodução do sistema social capitalista.
A expropriação do saber pelo sistema de ensino formal, resulta em sua progressiva racionalização enquanto mercadoria escolar. A realidade atual é farta de exemplos onde a concorrência interna, as parcerias etc., submetem o processo educativo à máxima da eficiência capitalista: trata-se, sob qualquer circunstância, de extrair o máximo rendimento com o menor custo. Em tempos de globalização, os recursos disponíveis tornam-se escassos – o que acentua a fabricação de projetos, a disputas por financiamentos – e reforçam-se os mecanismos de submissão do trabalho intelectual às exigências do capital.
A educação, transformada em mercadoria, submetida às leis do mercado, encontra-se longe de constituir 'capital humano'. Mesmo hoje quando várias vozes clamam por um ensino crítico, adaptado às novas exigências da revolução tecnológica, paradoxalmente, intensifica-se o que Tragtenberg denominou de 'taylorismo intelectual", qual seja:
a)     Submissão do trabalho intelectual às leis de reprodução do capital;
b)     Submissão à hierarquização social e do trabalho;
c)     Aquisição do hábito compulsivo de consumir títulos;
d)     Subordinação do individual e específico ao abstrato e genérico da "razão burocrática";
e)     Divisão do conhecimento em compartimentos estanques (em que pese a tão falada interdisciplinaridade).
É verdade que a universidade seguiu os passos da democratização – embora limitada –ocorrida no conjunto da sociedade. Até mesmo "conquistou" uma autonomia capenga. Mas, em sua essência, o "complô das belas almas", como dizia Tragtenberg, "recheadas de títulos acadêmicos, de doutorismo substituindo o bacharelismo, de uma nova pedantocracia, da produção de um saber a serviço do poder, seja ele de que espécie for", é de uma atualidade a toda prova. (TRAGTENBERG, 1990: 11)
Hoje, as "belas almas" conspiram sobre a melhor forma de abocanhar os recursos internos, de como garantir financiamentos de agências governamentais, como garantir as parcerias, isto é, "conquistar" o capital privado, como partilhar do dinheiro do FAT. As "belas almas" tentam nos fazer crer que a universidade abandonou seu conteúdo classista – aliás, alguns mais extremados afirmam mesmo que as classes desapareceram – e que constituiu-se numa instituição crítica.
Mas, por acaso superamos o "saber institucionalizado", este "saber burocratizado" apresentado como o único que é legítimo? A resposta pode ser buscada na política dos governos estaduais e federais em relação ao ensino superior público e gratuito – política que, devemos assumir, encontra vários adeptos entre docentes e discentes. Façamos a corte ao capital privado! Elaboremos projetos que sejam atraentes e rentáveis! Sejamos técnicos e apolíticos! Busquemos parceiros! Cobremos mensalidades nos cursos de especialização e pós-graduação stricto sensu! E porque não uma 'pequena taxa' a ser cobrada dos graduandos? Afinal, boa parte não é da classe média? Estejamos dispostos, como Fausto, a vender a própria alma! Tudo em nome da defesa do ensino público e da comunidade.
Tragtenberg afirma que o conhecimento formal universitário exprime "a concepção capitalista de saber" e que, na academia, "se constitui em capital e toma a forma nos hábitos universitários". (Idem: 13) Prisioneiros das armadilhas que criamos, nosso pensamento e ação são balizados pelos mesmos valores burgueses que criticamos.
No período ditatorial, os intelectuais despiam-se de qualquer responsabilidade política e social em nome da "segurança nacional", ou seja, da sua segurança pessoal. São raros os que arriscaram seus títulos e a possibilidade de ascenderem na carreira. Hoje, não temos mais as peias da ditadura militar. Ninguém precisa colocar sua cabeça a prêmio. Pelo contrário, a corrida é justamente pelo prêmio.
Ontem, "a política das "panelas" acadêmicas de corredor universitário e a publicação a qualquer preço de um texto qualquer se (constituía) no metro para medir o sucesso universitário". Ontem, a maioria dos congressos acadêmicos servia de "mercado humano", onde entravam "em contato pessoas e cargos acadêmicos a serem preenchidos, parecidos aos encontros entre gerentes de hotel, em que se trocam informações sobre inovações técnicas, revê-se velhos amigos e se estabelecem contatos comerciais". (Idem: 15)
Essa realidade mudou? Hoje, como ontem, nos seminários, colóquios etc., financiados com o dinheiro público ou não, paga-se para apresentar trabalhos a si mesmos ou aos amigos, que se revezam entre falantes e ouvintes. Da mesma forma, o imperativo da quantidade: não interessa o conteúdo e a qualidade do que se publica, mas sim quantos pontos vale; também não importa se alguém lerá o artigo; de preferência que seja publicado em algum país vizinho, pois as revistas internacionais garantem uma pontuação maior. Transformemos aulas em palestras! Nos insinuemos aos nossos amigos para que nos convidem a proferir palestras! Façamos acordos de corredores! É preciso fazer currículo a qualquer custo!
Eis a "delinqüência acadêmica" revitalizada!
A alternativa pedagógica libertária
Não sejamos pessimistas. Se a realidade atual exacerba os elementos críticos da pedagogia burocrática apontados por Tragtenberg, ainda é possível pensar e agir de forma diferenciada. O mestre nos oferece as pistas para uma nova pedagogia fundada na solidariedade, na autonomia e liberdade dos indivíduos e na autogestão. Trata-se da reapropriação do saber pelos trabalhadores, de desnudá-lo e resgatar seu caráter social e coletivo. Não mais o saber formal ingressado pela instituição escolar: a própria escola precisa ser transformada.
De fato, o educador crítico se encontra num dilema: o meio no qual desenvolve sua atividade é plenamente influenciado por valores e idéias que ele combate, mas que também incorpora; ele próprio é fruto deste meio. Como superar esta contradição? Bakunin, um dos pensadores que influencia Tragtenberg, põe esta questão nos seguintes termos:
"Como iriam (professores e pais) dar aos alunos o que eles próprios não têm? Só com o exemplo é que se prega bem a moral, e, ao ser a moral socialista contrária à moral atual, os professores, necessariamente dominados por esta, fariam diante dos alunos exatamente o contrário do que estariam pregando. De sorte que a educação socialista é impossível nas escolas assim como nas famílias atuais". (MORIYÓN, 1989: 49)
Parece que o impasse só pode ser superado pela criação de outro meio social, ou seja, "o problema mais importante é o da emancipação econômica", a qual engendra a emancipação política, moral e intelectual. Bakunin, ironizando os "bons socialistas burgueses" que defendem a educação do povo como condição para a sua emancipação, afirma: "Primeiro vamos emancipá-lo e ele se educará por si mesmo". (Idem)
O Congresso Anarquista de Bruxelas (1867), adotou uma resolução que aponta uma solução mediadora, sugerida por Bakunin:
"Reconhecendo que no momento é impossível organizar um ensino racional, o Congresso convida as diferentes seções a estabelecer aulas públicas seguindo um programa de ensino científico, profissional e produtivo, isto é, ensino integral, para remediar o mais possível a insuficiente educação que os operários recebem. E naturalmente a redução das horas de trabalho é considerada como uma condição prévia indispensável". (Idem)
Aparentemente, estamos diante de uma encruzilhada histórica. Se a educação libertária não tem espaço para frutificar na sociedade capitalista, então só nos resta esperar a revolução. Não nos enganemos: a fala de Bakunin corresponde muito mais às necessidades colocadas pela realidade do movimento operário no século XIX e, principalmente, pela estratégia inerente ao seu pensamento.
Também Ferrer, outro pedagogo que influenciou Tragtenberg, se vê diante de duas opções: renovar a escola tradicional ou fundar novas escolas. Ferrer conclui pela criação da Escola Moderna, baseada no ensino científico e racional oposto ao ensino religioso e controlado pelo Estado. Num tempo em que o Estado não se opõe à educação das massas, antes reconhece sua necessidade, parece contraditório defender uma escola não-estatal. O que motiva sua atitude é a compreensão de que os governos estimulam a educação apenas enquanto ela corresponder à formação de mão-de-obra para a indústria. (como na atualidade, as inovações tecnológicas exigem uma nova formação escolar dos trabalhadores).
Por outro lado, sua opção está estritamente vinculada à realidade econômica, social e política da Espanha: atrasada, econômica e culturalmente, onde a Igreja, vinculada ao Estado, cumpre a função de organizar a hegemonia cultural e intelectual e o Estado encontra-se anexado à nobreza (o que Weber denominou de "dominação hierocrática"); uma Espanha, enfim, obscurantista.
Os libertários brasileiros do início do século também enfrentaram o mesmo dilema. Com efeito, um dos principais obstáculos para a divulgação das idéias libertárias era precisamente o baixo nível de instrução do operariado brasileiro. Só uma minoria alfabetizada lia as diversas publicações operárias da época. Os anarquistas lançaram-se então à tarefa de instruir os operários. Críticos à educação burguesa estatal e religiosa, assumiram os preceitos pedagógicos de Ferrer e fundaram suas próprias escolas, mantidas pelos trabalhadores, criaram Centros de Cultura e inclusive a Universidade Popular.
Também eles perceberam que o espaço formal onde se processava o ensino era impeditivo à educação libertária. Como Bakunin, acentuaram a necessidade da revolução, pois somente esta poderia transformar e universalizar a educação. Este traço libertário é, a nosso ver, positivo, na medida em que não outorga à educação um papel redentor, deixando evidente seus limites quando se pensa na transformação integral da sociedade. A educação, embora cumpra uma função de fundamental importância, não substitui a dinâmica social e as respectivas formas de organização que os trabalhadores constroem.
Devemos, portanto, compreender tais manifestações de repúdio absoluto ao espaço escolar dentro de determinadas circunstâncias históricas. Do contrário, seremos obrigados a concordar que a escola é mero 'aparelho ideológico' do capital. Reconhecemos que a educação crítica se alimenta do próprio espaço criticado. A escola interage com a sociedade, incorporando tanto seus aspectos negativos como positivos. A própria realidade na qual o professor desenvolve seu trabalho intelectual – enquanto assalariado, submetido à hierarquia e espremido pelas exigências burocráticas –, induz à contestação, à crítica. Como ressalta Tragtenberg, o mesmo movimento que reforça o papel do professor e da educação enquanto reprodutores da ordem social vigente, "cria condições para a emergência de uma pedagogia antiburocrática". (TRAGTENBERG, 1980: 57)
Esta pedagogia exige a união indissolúvel entre trabalho e pesquisa, entre a teoria e a prática. Ela representa o resgate e a reafirmação dos princípios educacionais defendidos pela Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT): "uma educação 'integral e igualitária' como condição de auto-emancipação dos trabalhadores e portanto de toda a sociedade". Tragtenberg esclarece aos espíritos incautos que esta 'educação integral' não requer a "introdução de artes manuais nas academias, nem de parcializações acadêmicas, trata-se de definir temas a partir de centros de interesses comuns e a estruturação da apreensão do conhecimento se dar como conseqüência deste processo". (Idem)
Trata-se de inverter a ordem dos procedimentos pedagógicos. Em vez de se colocar como tarefa "dar um curso", por que não se perguntar: "em que medida o saber acumulado e formulado pelo professor tem chance de tornar-se o saber do aluno?" (TRAGTENBERG, 1985: 45)
Para que isto ocorra é preciso contrapor à pedagogia burocrática uma pedagogia crítica fundada na:
·         Autogestão: gestão da educação pelos diretamente envolvidos no processo educacional e a "devolução do processo de aprendizagem às comunidades onde o indivíduo se desenvolve (bairro, local de trabalho)";
·         Autonomia do indivíduo: "O indivíduo não é um meio: é fim em si mesmo. No universo das coisas (mercadorias) tudo tem um preço, porém só o homem tem uma dignidade. Negação total de prêmios ou punições";
·         Solidariedade: crítica permanente de todas as formas educativas que estimulam ou fundamentem-se na competição; crítica a todas as normas pedagógicas autoritárias. (TRAGTENBERG, 1980: 58)
Esta proposta pedagógica pressupõe ainda: educação gratuita para todos; superação da divisão dos professores em categorias; liberdade de organização para os trabalhadores da educação.
Em suma, o objetivo desta educação crítica é: "Evitar a emergência de "novos patrões" e "dirigidos", como "vanguardas", "elites" e "intelectuais" carismaticamente qualificados ou não, criando estruturas onde a ação se faça pela concordância de todos e não pela imposição de cima para baixo". (Idem)
Um modelo prático desta pedagogia libertária é a experiência do Sindicato do Ensino da Espanha (ligado à Confederação Nacional do Trabalho). Este sindicato desenvolveu uma campanha contra o sistema de exames, questionando os mecanismos de avaliação e a titulação enquanto fonte de privilégios. Seus objetivos são:
a)     Devolver a educação à sociedade;
b)      Desenvolver a autogestão;
c)      Combater todo tipo de autoritarismo e produzir uma prática pedagógica onde todos são iguais em direitos e deveres;
d)      Fundir o trabalho intelectual com o trabalho manual;
e)      Superar o dualismo professor-aluno.
Este sindicato incorpora todos os envolvidos no processo educativo (docentes, discentes, moradores, pais). Funciona através da democracia direta (abolição da hierarquia, delegação revogável); com responsabilização coletiva pelas tarefas e uma estrutura federativa (com os grupo autônomos ligados entre si pela solidariedade, sendo as assembléias gerais fóruns de decisões unitárias). Seu princípio é: "A libertação dos trabalhadores tem que ser obra dos próprios trabalhadores".
Conclusão
A importância de um pensamento político-pedagógico reside não apenas naquilo que seu protagonista conseguiu legar para as gerações futuras através da sua obra e, principalmente, da sua práxis. Aqueles que tiveram a feliz oportunidade de conviver com o mestre – seus alunos, orientandos, colegas de profissão, sindicalistas, trabalhadores em geral etc. – são a comprovação viva da sua influência. O próprio Tragtenberg, com a simplicidade que lhe era peculiar, atesta tal ascendência em seu 'Memorial'.[1] Com efeito, ele conseguiu fecundar a obra de intelectuais reconhecidos, o que significou a mudança de paradigmas.
Qual a extensão desta influência? Quantos educadores por este Brasil afora não foram afetados positivamente pelo convívio pessoal ou através da leitura da sua obra crítica? Questão difícil de responder, mesmo porque um pensamento fecundo não somente sobrevive ao seu criador como permanece atuando silenciosamente sobre os corações e mentes dos seus discípulos e daqueles que preocupam-se em desenvolver uma crítica pedagógica da sua própria ação.
Porém, não nos iludamos. Estas questões nunca fariam parte do rol das preocupações do mestre. A própria relação mestre-discípulo não pode ser compreendida se restrita às formalidades acadêmicas: a definição 'mestre' expressa simplesmente o respeito e estima, a gratidão própria do indivíduo que se vê no outro e que reconhece neste a autoridade legítima e natural. Esse reconhecer-se no outro pode fundar-se tanto numa relação de dominação, onde o mestre se sobrepõe de tal maneira ao discípulo que impede-o de desenvolver suas potencialidades, quanto numa relação dialética mediada pelo diálogo e respeito ao conhecimento do aluno.
O mestre tanto pode ser um obstáculo ao livre desenvolvimento crítico da formação do discípulo, como pode representar uma espécie de âncora na qual este se apóia para alçar seus próprios vôos e, se possível, ultrapassar o próprio mestre. Gusdorf, nos fornece um exemplo ilustrativo, citando o filósofo Hegel o seu discípulo Karl Mark:
"Os bons alunos de Hegel recitaram a lição de Hegel, simples repetidores do espírito absoluto (...) Mas os melhores alunos de Hegel acabaram por se levantar contra o ídolo, encontrando a sua própria verdade na denúncia de qualquer pretensão totalitária à verdade". (1995: 103)
Neste exemplo, a superação da relação desigual do mestre com o discípulo deveu-se muito mais às qualidades do segundo. Sabemos o quanto é comum, principalmente em política, que os discípulos, cegos seguidores de ideologias congeladas no tempo, contentem-se em venerar ícones e despojem-se de qualquer referência crítica a um pensamento sacralizado, o qual, em geral, fruto das diversas interpretações, transformaram-se em sua antítese.
Neste modelo pedagógico, o bom aluno não deve ter a pretensão de questionar ou mesmo ultrapassar o professor: se Hegel anuncia o fim da história e da filosofia, seu aluno deve apenas satisfazer-se em repeti-lo ou, se voltar atrás, será somente no sentido de "justificar a inutilidade de qualquer reflexão futura". Ontem, como hoje, "o fruto seco consola-se por ser fruto; pois, se o mestre disse tudo, não há mais nada a dizer senão aquilo que o mestre disse". (Idem: 125)
Bem diferente é a relação professor-aluno quando se trata de uma pedagogia libertária. A práxis do mestre interage com as certezas e dúvidas do discípulo, um diálogo fundado na negação do autoritarismo e do discurso do intelectual prepotente e 'competente' que se erige à divindade de um semideus do saber.
A pedagogia libertária põe em evidência precisamente o problema da autoridade. Neste sentido, Tragtenberg resgata a tradição autogestionária já presente na I Internacional, (AIT). Em seus escritos, há a referência constante aos marinheiros de Kronstadt, esmagados pelo exército vermelho liderado por Trotsky; à revolução camponesa maknovista na Ucrânia, também derrotada pelos bolcheviques. Esta alusão sempre é acompanhada da defesa da liberdade como valor e da crítica à burocracia – "essa desgraça do nosso século" (TRAGTENBERG, 1991:37).
Os autores que Tragtenberg se apóia para fundamentar teoricamente sua militância libertária incluem desde os clássicos do anarquismo e MARX, passando pelos marxistas heterodoxos (GORTER, MAKAYA, BORDIGA)[2], pela crítica antiburocrática de KOLLONTAI e LUXEMBURGO, autores como FERRER, LOBROT , WEBER e até mesmo o TROTSKY crítico do leninismo que muitos trotiskistas fingem desconhecer. Esta gama variada de suporte teórico longe de caracterizá-lo como eclético, exime-o de tal imputação: Tragtenberg dialoga com todos, é um exemplo do exercício da liberdade intelectual, da tolerância e respeito às idéias divergentes e, por outro lado, testemunha sua erudição.
Neste debruçar-se sobre obras e autores tão diversos, Tragtenberg traça um fio de continuidade, destacando-se os seguintes pontos em comum: a defesa da LIBERDADE, da AUTO-ORGANIZAÇÃO dos trabalhadores; a crítica `a BUROCRACIA, ao vanguardismo e ao fetichismo do PARTIDO; a valorização do SABER dos trabalhadores e da DEMOCRACIA pela base; a SOLIDARIEDADE.
Tragtenberg firma-se pelo exemplo de coerência entre o discurso e a prática. Seu relacionamento com os sindicalistas combativos, as oposições sindicais, os trabalhadores e seus colegas de trabalho e os estudante comprova-o. Seus artigos na coluna "Batente" e em outros jornais revelam uma permanente valorização do conhecimento operário, uma constante disposição, rara entre nossos intelectuais, de 'dar uma força', de servi-lo. Seu carinho e dedicação aos intelectuais orgânicos dos trabalhadores é outra prova viva de uma pedagogia fundada na verdade e na convicção de que os indivíduos são capazes de se apropriarem do saber.
Tragtenberg nos legou uma alternativa. Basta romper o conformismo e tentar! É preciso opor-se à "delinqüência acadêmica". Afinal, é na instituição universitária que formam-se aqueles que são – ou serão – os educadores dos nosso filhos. A transformação social pressupõe que o educador seja educado. As escolas precisam ser algo mais do que "depósitos de alunos", ou como diria Lima Barreto, "Cemitérios de Vivos". (TRAGTENBERG, 1990: 16)[3]
Em 1979, Tragtenberg combatia pela "criação de canais de participação real" dos professores, estudantes e funcionários como forma de opor-se à "esclerose burocrática" da instituição universitária. Vinte anos depois, sua fala permanece atual:
"A autogestão pedagógica teria o mérito de devolver à universidade um sentido de existência, qual seja: a definição de um aprendizado fundado numa motivação participativa e não no decorar determinados "clichês", repetidos semestralmente nas provas que nada provam, nos exames que nada examinam, mesmo porque o aluno sai da universidade com a sensação de  estar mais velho, com um dado a mais: o diploma acreditativo que em si perde valor na medida em que perde sua raridade".(Idem: 16)
Talvez o que mudou tenha sido simplesmente a periodicidade das provas e exames. Ora, é preciso ir além. Nossas crianças e alunos – universitários ou não – merecem e precisam que perseveremos nesta senda.
Ao resgatarmos esse ideal pedagógico libertário prestamos nossa sincera homenagem e abraçamos sua utopia da maneira que aprendemos: sem culto à personalidade, com a liberdade de divergir e a possibilidade de superar-se e, acima de tudo, sem qualquer pretensão à ilusão da neutralidade diante dos desafios concretos que temos em nosso caminhar.


* Publicado originalmente na Revista Lutas Sociais, 6, 2º semestre de 1999, pp. 07-20, do Núcleo de Estudos de Ideologia e Lutas Sociais (NEILS) e Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC/SP.
[1] Escrito em 1990, por ocasião de seu concurso para titular na Faculdade de Educação da Unicamp. Ver bibliografia.
[2] Tragtenberg define o marxismo heterodoxo como uma “leitura de Marx não regida pelos moldes ‘ortodoxos’ definidos pelo chamado ‘marxismo-leninismo-stalinismo’ ou ‘marxismo-leninismo-trotskismo’”. Um marxismo que questiona “os dogmas aceitos acriticamente pelos militantes e teóricos dialéticos, especialmente a noção de ‘ditadura do proletariado’; uma heterodoxia que põe em xeque  ‘a noção de partido hegemônico’.” (Tragtenberg, 1981: 07)
[3] Trata-se do artigo “A delinqüência acadêmica”, publicado em Educação e Sociedade, 3, 1979. Reproduzido em Tragtenberg (1990).