Autor: Anita Leocadia Prestes Instituição: Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ

RESUMO
No
texto aborda-se a questão de qual deve ser a postura do historiador
comprometido com as lutas populares, com os interesses de classe dos
explorados e oprimidos. Faz-se uma discussão a respeito do ofício de tal
historiador e da sua prática diante da História Oficial, que se
encontra consagrada e difundida principalmente nos livros escolares e na
mídia.
Afirma-se
que o marxismo é a opção teórica que melhor consegue explicar
racionalmente o funcionamento das sociedades humanas, principalmente na
época atual. Destaca-se a importância do legado teórico de A. Gramsci
para o ofício do historiador que pretende contribuir para a elaboração
de uma história dos movimentos sociais no Brasil e, em particular das
lutas dos comunistas brasileiros durante o século XX. Ressalta-se o
papel dos intelectuais orgânicos (segundo Gramsci) – e, em
particular,dos historiadores – junto aos movimentos populares.
São
abordados vários momentos e diversos aspectos da história do PCB tendo
como pressupostos teóricos categorias gramscianas como sociedade civil e
sociedade política, consenso e hegemonia, guerra de posição e guerra de
movimento, entre outras. É discutido o conceito de bloco histórico de
Gramsci e sua aplicação para o entendimento da atuação política dos
comunistas. Da mesma forma, tendo como base as indicações gramscianas
sobre o conceito de partido político e a respeito da formação do grupo
dirigente do Partido Comunista, apresenta-se uma proposta de explicação
para as características assumidas pelo PCB a partir de sua Conferência
da Mantiqueira, realizada em 1943.
O
texto ressalta as inesgotáveis possibilidades que a contribuição
teórica de Gramsci oferece para a elaboração de uma História
comprometida com a evidência e, por isso mesmo, também com as aspirações
de emancipação econômica, social e política de milhões de homens e
mulheres explorados e oprimidos, com os objetivos dos movimentos sociais
e das lutas populares por um mundo melhor, com justiça social e
liberdade, por um futuro socialista.
PALAVRAS-CHAVE:GRAMSCI – OFÍCIO DO HISTORIADOR – HISTÓRIA DO PCB
TEXTO
Como
é sabido, não existe História neutra ou História que seja uma mera
reprodução dos fatos ocorridos em determinado momento histórico. O fato
histórico é uma escolha do historiador, um recorte feito por ele e que
reflete seu posicionamento diante do mundo e daquela realidade que está
sendo por ele descrita. A História é uma construção, que pode ter maior
ou menor compromisso com a evidência, mas na qual existe sempre uma
carga indiscutível de subjetividade.
Numa sociedade atravessada, e movida, por conflitos sociais, ou seja, numa
sociedade
onde há explorados e exploradores, onde há classes antagônicas, a
História Oficial é sempre uma construção que reflete os interesses dos
grupos sociais dominantes. Em outras palavras, é uma construção das
classes sociais que detém o poder e os meios de comunicação. E isso é
verdade, mesmo quando tal situação está mascarada, não explicitada,
quando não é evidente.
Qual
deverá ser, portanto, a postura do historiador comprometido com as
lutas populares, com os interesses de classe dos explorados e oprimidos?
Como deverá ser o ofício de tal historiador? Qual deverá ser a prática
desse historiador diante da História Oficial, que se encontra consagrada
e difundida principalmente nos livros escolares e na mídia?
No
meu entender, é o marxismo que melhor consegue responder aos grandes
desafios postos perante a humanidade, que melhor consegue explicar
racionalmente o funcionamento das sociedades humanas, principalmente na
época atual, período pós Era dos Extremos, segundo a expressão cunhada
por Eric Hobsbawm (HOBSBAWM, 1995)
O
grande historiador francês Pierre Vilar escreveu que é necessário
encontrar “no espaço e no tempo, o marco legítimo de modelo estrutural
utilizável em história” e concluiu que “até o momento, o melhor marco
parece ser o proposto por Marx: a noção de ‘modo de produção’”. Segundo
Vilar, “um modo de produção é uma estrutura que expressa um tipo de
realidade social total”, é o modelo capaz de assegurar uma explicação
racional do funcionamento das sociedades humanas (VILAR, 1982: 67). A
meu ver, a partir desse modelo é possível aproximar-se de uma explicação
científica das sociedades humanas.
Marx
e Engels, os pais fundadores da teoria marxista, abriram caminho para
que a História se tornasse uma “ciência em construção”, nas palavras de
Pierre Vilar (VILAR, 1979: 146-178), para que conceitos como classe,
luta de classes e Estado adquirissem caráter científico. Se Lênin
desenvolvera a teoria marxista na época do imperialismo e nas condições
de um país atrasado como a Rússia czarista, coube ao filósofo e
dirigente revolucionário italiano Antônio Gramsci um papel
extraordinário no que diz respeito à teorização do Estado, do poder e da
política, numa situação diferente, existente no Ocidente europeu no
primeiro pós-guerra. Tendo por base o conceito de hegemonia, elaborado e
amplamente utilizado por Lênin, em particular em sua obra O Estado e a
Revolução (LÊNIN, 1960: 291389), Gramsci o viria a desenvolver de forma
criativa.
Torna-se,
pois, indispensável abordar a teoria gramsciana do “Estado ampliado”.
Segundo Christine Buci-Glucksmann, “a ampliação do conceito de Estado”
constitui a maior contribuição teórico-política de Gramsci.
(BUCI-GLUCKSMANN, 1976: 65))
Em
que sentido podemos falar em “ampliação” do conceito de Estado por
parte do filósofo italiano? De acordo com Guido Liguori, em duas
direções principais:
1ª
direção) Sem invalidar a tese marxista da determinação “em última
instância” do Estado e da política pelos fatores econômicos, Gramsci
percebeu a presença de uma nova relação entre política e economia como
um dos traços peculiares do século XX. Em outras palavras, destacou a
importância dos fenômenos relacionados com a autonomia relativa do
Estado e da política , dentre os quais o fascismo adquiria grande
destaque. (LIGUORI, 2007: 13-14)
2ª
direção) A compreensão da nova relação entre “sociedade política” e
“sociedade civil” (entendida esta como “lugar de consenso”), a que
Gramsci chega formulando sua teoria da hegemonia. É uma relação – entre
sociedade política e sociedade civil – que, segundo este autor, começa a
mudar já no século XIX, para afirmar-se plenamente no século XX. Tal
mudança é expressa pela metáfora espacial “Oriente-Ocidente”, segundo a
qual a Rússia seria o “Oriente” e a Europa Ocidental, o “Ocidente”.
(Idem: 14) No Oriente a sociedade civil seria débil, pouco desenvolvida,
se comparada com a robustez da mesma no Ocidente.
Devo
lembrar que, para Gramsci, o Estado pode ser examinado em dois grandes
níveis: o que ele denomina de sociedade civil, isto é, o conjunto dos
organismos vulgarmente chamados “privados”; e o da sociedade política ou
Estado propriamente dito. A sociedade civil corresponde à função
hegemônica que o grupo dominante exerce em toda a sociedade e a
sociedade política à função de dominação direta ou de comando que se
exprime no Estado e no governo “jurídico”. (GRAMSCI, 2001, V.2: 20-21)
Na sociedade civil se elaboram as concepções do mundo, as ideologias e
todas as atividades mais ou menos intelectuais pelas quais se amalgamam
as diversas formas do consenso social, desde os jornais até os
organismos religiosos ou escolares. Na sociedade civil se elabora o
consenso em torno dos interesses dominantes na sociedade, tem lugar a
hegemonia da classe dominante, que é transmitida e difundida junto aos
grupos subalternos. (Idem)
Resumindo,
podemos afirmar que, segundo Gramsci, não existe uma separação orgânica
entre sociedade civil e sociedade política. Tal separação é apenas
metodológica. O importante é compreender que toda classe dominante
exerce a dominação através da coerção (cujos aparelhos fazem parte da
sociedade política) e também do consenso e da hegemonia (produzidos na
sociedade civil). É na sociedade civil que tem lugar a luta ideológica
entre diversas concepções do mundo, ou melhor, entre as ideologias dos
grupos dominantes e as dos setores dominados e explorados. Para Gramsci,
a sociedade civil é atravessada e movida pelas lutas de classes, tese
oposta à de ideólogos burgueses, como é o caso de Norberto Bobbio, para
quem a sociedade civil seria o lugar do consenso, compreendido por este
autor como entendimento, numa concepção de caráter liberal, segundo a
qual não existiriam interesses antagônicos em choque (LIGUORI, 2007:
39-41).
É
na sociedade civil que, de acordo com Gramsci, atuam os intelectuais
orgânicos, aqueles intelectuais que expressam consciente ou
inconscientemente os interesses dos diferentes grupos sociais existentes
em cada sociedade. Segundo Gramsci, cada classe gera seus intelectuais
orgânicos, ou produtores culturais, que atuam na sociedade civil,
representando os interesses dos grupos dominantes nessa sociedade, e
contribuem para que seja assegurada, através do consenso, a hegemonia
desses setores. Para haver hegemonia, é necessário que haja aceitação e
adesão dos setores subalternos ou dominados.
Voltando
à produção da História Oficial, entendo que ela é construída pelos
donos do poder (as classes dominantes), ou, segundo A.Gramsci, pelos
seus intelectuais orgânicos. Em outras palavras, a História Oficial é
expressão da ideologia dominante, ou seja, dos interesses das classes
dominantes numa determinada sociedade dividida em classes antagônicas.
Por
isso mesmo, a História Oficial freqüentemente não atende ao compromisso
do historiador com a evidência. Nas palavras de E. Hobsbawm, ao
criticar o irracionalismo “pósmoderno”: “(...) é essencial que os
historiadores defendam o fundamento de sua disciplina: a supremacia da
evidência (...). Se a história é uma arte imaginativa, é uma arte que
não inventa, mas organiza objetos encontrados”. (HOBSBAWM, 1998:
286-287; grifo meu).
Nos
dias de hoje, a meu ver, a luta ideológica é a principal forma da luta
de classes, que não deixará de existir enquanto perdurarem o capitalismo
e a exploração do homem pelo homem. (A violência, ou coerção, estará
sempre presente, como a Espada de Dâmocles, quando necessária na
manutenção do poder.) As classes dominantes buscam a hegemonia através
do consenso. Mas, quando necessário, apelam para a coerção.
Eis
a razão por que a elaboração da História Oficial adquire uma
importância crescente nas sociedades contemporâneas. Trata-se de
proclamar e difundir as vitórias e os sucessos alcançados pelos donos do
poder, de hoje e do passado, nos permanentes conflitos sociais
presentes na história mundial. Trata-se de consagrar o capitalismo. Em
contrapartida, os ideais e as lutas dos setores, que não obtiveram êxito
em seus propósitos revolucionários e transformadores e, muitas vezes,
sofreram duras derrotas, são, segundo a lógica da História Oficial,
esquecidos, silenciados, deturpados e combatidos. Em nossas sociedades
contemporâneas, são os intelectuais orgânicos, comprometidos com a
burguesia que cumprem a função de produzir tal História Oficial. Dessa
forma, são consagradas inúmeras deformações históricas, inúmeras
inverdades históricas e silenciados numerosos acontecimentos que não são
do interesse dos setores dominantes que sejam do conhecimento da grande
maioria das pessoas e, em particular, das novas gerações.
Entretanto,
a hegemonia das classes dominantes nunca é absoluta, pois a exploração
capitalista e o agravamento dos conflitos sociais levam ao surgimento de
intelectuais orgânicos comprometidos com os interesses dos
trabalhadores, dos explorados e oprimidos. O historiador marxista E.P.
Thompson escreve: “não posso aceitar a opinião (...) de que a hegemonia
imponha um domínio total sobre os governados – ou sobre todos aqueles
que não são intelectuais – que atinge até mesmo o limite de sua
experiência, e implanta em seus espíritos desde o seu nascimento
categorias de subordinação, das quais são incapazes de libertar-se e,
para cuja correção, sua experiência resulta impotente” (THOMPSON, 1984:
60).
Observação
fundamental para quem pretende contribuir para a elaboração de uma
outra História, uma História comprometida com a evidência, uma História
que possa ajudar a construir uma outra hegemonia ou, dito de outra
maneira, uma contra-hegemonia. Uma História comprometida com a criação
de propostas libertadoras e de emancipação da grande maioria dos homens e
mulheres explorados, oprimidos e subordinados na sociedade capitalista
em que vivemos. O historiador engajado em tal proposta poderá
transformar-se num intelectual orgânico comprometido com os interesses
populares, os interesses da maioria do povo brasileiro, se estiver
atento para a postura militante que deve assumir diante da História
Oficial, produzida pelos intelectuais orgânicos a serviço da burguesia.
Tendo
como ponto de partida tais pressupostos, para mim, o ofício de
historiador consiste no esforço permanente de contribuir para a
elaboração de uma história dos movimentos sociais no Brasil e, em
particular, das lutas dos comunistas brasileiros durante o século XX
comprometida tanto com a evidência quanto com a perspectiva de uma
solução revolucionária para o nosso povo. Nesse sentido, o legado de
Gramsci é primordial.
Em
meu último livro, recentemente publicado (PRESTES, 2010), resultante de
ampla pesquisa em fontes diversificadas da atuação dos comunistas
brasileiros no período 1945 a 1956/58 -e do papel de Luiz Carlos Prestes
à frente do Partido Comunista durante esses anos -, as categorias
gramscianas de sociedade civil e sociedade política, consenso e
hegemonia, guerra de posição e guerra de movimento, entre outras,
constituem referências teóricas de valor inestimável para os resultados a
que pude chegar.
Vale
a pena lembrar, por exemplo, que os comunistas brasileiros, assim como
boa parte dos seus contemporâneos do movimento comunista internacional,
sempre afirmaram em seus documentos que, na atuação política de seus
partidos, uma das metas mais importantes seria a conquista da hegemonia
da classe operária junto aos diferentes setores sociais aliados nos
processos revolucionários em pauta. Meta essa fundamental para que os
objetivos revolucionários traçados pudessem ser efetivamente alcançados.
Como
era entendida, entretanto, na maioria dos casos, tal luta pela
hegemonia da classe operária? Ao não levar em conta o papel desempenhado
pelo consenso ea hegemonia alcançados pelos intelectuais orgânicos das
classes dominantes na sociedade civil (na concepção gramsciana de tais
categorias), ao desconsiderar, frequentemente, o papel decisivo do
consenso e da hegemonia construídos pela burguesia nas sociedades
contemporâneas, os comunistas, muitas vezes, subestimaram a importância
da luta ideológica. Ainda que esta fosse bastante enfatizada nos
documentos partidários, ao não perceber a necessidade imperiosa, para o
êxito de qualquer transformação revolucionária, da construção de uma
contra-hegemonia revolucionária na sociedade civil, os dirigentes
comunistas, por vezes, abdicaram, na prática, de um empenho real voltado
para a formação de intelectuais orgânicos comprometidos com a
elaboração de tal contra-hegemonia e com a luta pela sua conquista.
Na
história do PCB, tais fatores contribuíram para que a ideologia
burguesa alcançasse significativa penetração em suas fileiras. Desde a
sua fundação, na década de 1920, o nacionalismo, sob diferentes formas,
viria a tornar-se a concepção ideológica dominante entre os comunistas
brasileiros. Como pude mostrar em meu referido livro:
“A
comparação entre as várias formas de nacionalismo que estiveram
presentes em diversos momentos da trajetória política dos comunistas
brasileiros contribui para que melhor se possa perceber a permanência
nas fileiras do PCB da ideologia nacional-libertadora – ideologia esta
que, encontrando ampla receptividade na sociedade brasileira dos anos
1950, sobrepôs-se à ideologia do proletariado, ou seja, contribuiu para
que o PCB continuasse a ser, como antes, um partido progressista, movido
pelos ideais nacionalistas e democráticos, cuja real implementação se
tornara inviável devido às características do desenvolvimento
capitalista brasileiro,subordinado e associado ao grande capital
internacionalizado.” (PRESTES, 2010: 154)
Penso
que, o desconhecimento da teoria gramsciana do Estado ampliado e de
suas importantes implicações, em particular no que diz respeito à luta
pela hegemonia na sociedade civil, contribuiu para que os dirigentes do
PCB incorressem num sério risco, para os marxistas, advertido por E.
Hobsbawm, de “aceitar o nacionalismo como ideologia e programa, ao invés
de encará-lo realisticamente como um fato, uma condição de sua luta
como socialista” (HOBSBAWM, 1980: 310).
Conforme
pude observar, ao pesquisar a trajetória dos comunistas brasileiros,
“se o PCB, desde o início de sua formação, sofreu forte influência das
idéias e das posturas nacionalistas presentes na sociedade brasileira da
época, nos anos 1940-1950 – quando o nacionalismo se tornou um
verdadeiros “divisor de águas” – a adesão do PCB às teses nacionalistas
então em voga seria particularmente marcante” (PRESTES, 2010: 59).E tais
teses ficaram consagradas na literatura com a etiqueta de
nacional-desenvolvimentismo.
A
incompreensão da necessidade de elaborar um projeto revolucionário
viável para a construção de uma contra-hegemonia, ou seja, capaz de
conquistar e unificar amplos setores populares, formando um consenso de
contestação ao consenso dominante -fabricado pelos intelectuais
orgânicos da burguesia através principalmente do controle dos meios de
comunicação de massa -, levou o PCB, na prática, a abandonar os
objetivos revolucionários consagrados nos documentos partidários, a
enveredar irremediavelmente pelo caminho do reformismo burguês. Na
história do PCB, principalmente a partir dos anos 1950, o reformismo, se
caracterizaria pela adesão à ideologia do nacional-desenvolvimentismo e
a permanência da ilusão na possibilidade de alcançar um capitalismo
autônomo em nosso país, com a colaboração de uma hipotética burguesia
nacional.
A
ausência de um projeto revolucionário viável para as condições do
Brasil, contribuiu para que o PCB se mantivesse apegado durante décadas
às formulações de uma revolução por etapas, explicitada numa estratégia
nacional-libertadora, cuja inadequação à realidade do país acarretava a
adoção por parte do partido de drásticas viradas táticas ora à
“esquerda” ora à “direita” (PRESTES, A.L.,1980). Como conseqüência, os
comunistas brasileiros pouco contribuíram para uma efetiva acumulação de
forças, conforme as diretrizes de grande parte dos documentos
partidários. As categorias gramscianas de guerra de posição e guerra de
movimento (ou assalto ao poder) nos ajudam a melhor compreender a
política do PCB. Podemos dizer que uma estratégia política reformista e
inadequada às condições do Brasil não ajudava os comunistas a acumularem
forças num processo de guerra de posição, segundo Gramsci. Ao mesmo
tempo, favorecia a afirmação de uma concepção golpista de assalto
imediato ao poder, ou guerra de movimento, tática de sucesso improvável
nas condições do mundo ocidental pós Primeira Guerra Mundial, conforme
Gramsci explicitou nos Cadernos do Cárcere. Para o filósofo e dirigente
comunista italiano, no mundo contemporâneo, emque a sociedade política
está vinculada a uma robusta sociedade civil,a guerra de posição seria o
caminho para acumular forças e preparar as condições para o sucesso dos
revolucionários na conquista do poder, momento em que a guerra de
movimento seria oportuna e necessária (GRAMSCI, 2000, V.3: 255-257,
261-262).
Pude
observar que na história do PCB, assim como na de grande parte dos seus
congêneres em diversos continentes, a defesa de políticas de alianças
com outros partidos políticos e com outras forças sociais e políticas
pode ser considerada uma constante. Com certa frequência aparecem
referências à necessidade de formar um bloco histórico de setores
sociais possuidores de interesses e reivindicações comuns ou
convergentes. Na realidade, trata-se da tentativa de formação de uma
aliança baseada numa certa identidade de interesses econômicos.
Entretanto, o conceito gramsciano de bloco histórico pressupõe o momento
político dessa aliança. “Sua constituição está assentada em classes ou
grupos concretos definidos pela sua situação na sociedade, mas as idéias
cumprem um papel fundamental no que se refere à sua coesão.” Em outras
palavras, no bloco histórico, há “uma estrutura social – as classes e
grupos sociais – que depende diretamente das relações entre as forças
produtivas; mas também há uma superestrutura ideológica e política”.
(BIGNAMI, s.d.: 27)
Gramsci
escrevia nos Cadernos do Cárcere que, segundo Marx, “uma persuasão
popular tem, com freqüência, a mesma energia de uma força material”. Tal
afirmação, segundo o filósofo italiano, “conduz ao fortalecimento da
concepção de ‘bloco histórico’, no qual, precisamente, as forças
materiais são o conteúdo e as ideologias são a forma, distinção entre
forma e conteúdo puramente didática, já que as forças materiais não
seriam historicamente concebíveis sem forma e as ideologias seriam
fantasias individuais sem as forças materiais” (GRAMSCI, 2001, V.1:
238).
Os
elementos citados da concepção gramsciana de bloco histórico permitem
perceber o frequente empobrecimento de tal conceito no âmbito dos
partidos comunistas. Nas fileiras do PCB semelhante postura, por
exemplo, teria como consequência a subestimação pelo trabalho ideológico
de formação teórica e política não só dos seus quadros como também de
lideranças populares. A incompreensão da necessidade de criar um bloco
histórico contra-hegemônico, capaz de conduzir o processo revolucionário
à vitória, condicionou o desarmamento ideológico e político dos
comunistas diante do bloco histórico dominante e a inevitável
capitulação frente ao reformismo burguês.
As
indicações gramscianas sobre o conceito de partido político também são
significativas, quando se quer escrever a história de um partido.
Segundo Gramsci, “pode-se dizer que escrever a história de um partido
significa nada mais do que escrever a história geral de um país a partir
de um ponto de vista monográfico, pondo em destaque um seu aspecto
característico.Um partido terá maior ou menor significado e peso
precisamente na medida em que sua atividade particular tiver maior ou
menor peso na determinação da história de um país.” (GRAMSCI, 2000, V.3:
87)
Tendo
como base as considerações de Gramsci sobre a formação do grupo
dirigente do Partido Comunista por ele fundado e dirigido, verifiquei
que, para melhor compreender a orientação política posta em prática pelo
PCB a partir dos anos 1940, seria necessário analisar a reestruturação
por que passou, nesse período, a direção partidária. Gramsci escrevia
que “todos os problemas de organização são problemas políticos”
(GRAMSCI, 2004, V.2: 348) e acrescentava: “É preciso criar no interior
do Partido um núcleo (...) de companheiros que tenham o máximo de
homogeneidade ideológica e, portanto, consigam imprimir à ação
partidária um máximo de unidade de orientação” (idem:129-130). A tal
núcleo caberia o papel de garantir a “formação de uma vanguarda
proletária homogênea e ligada às massas” (idem: 351). Para Gramsci, a
formação do grupo dirigente ou núcleo dirigente constituía um ponto de
partida fundamental para a construção do Partido Comunista e,
consequentemente, as características de tal grupo dirigente iriam
definir o perfil da organização partidária em questão.
A
pesquisa da história dos comunistas brasileiros por mim desenvolvida me
levou à conclusão de que na Conferência da Mantiqueira do PCB,
realizada em agosto de 1943, foi constituído um novo grupo dirigente,
que, embora no decorrer dos anos, sofreria algumas modificações, seus
elementos mais destacados foram os que orientaram a reconstrução do
partido e o dotaram de um tipo de organização que correspondia aos
objetivos políticos traçados naquela Conferência. O caráter
nacional-libertador da política então aprovada seria sua marca
registrada. As características do novo grupo dirigente iriam definir o
perfil da organização partidária que viria a existir daí por diante. O
berço do novo PCB, reconstruído após seu esfacelamento em 1940, seria a
Conferência da Mantiqueira, e o seu novo perfil foi determinado pelo
núcleo dirigente constituído nesse conclave.Ao
estudar a trajetória dos comunistas brasileiros, é possível perceber a
atualidade das considerações gramscianas concernentes “à capacidade do
partido reagir contra o espírito consuetudinário, isto é, contra as
tendências a se mumificar e tornar anacrônico”. Gramsci escrevia:“Os
partidos nascem e se constituem como organização para dirigir a
situação em momentos historicamente vitais para suas classes, mas nem
sempre eles sabem adaptar-se às novas tarefas e às novas épocas, nem
sempre sabem desenvolver-se de acordo com o desenvolvimento do conjunto
das relações de força (...) no país em questão ou no campo
internacional. (...) A burocracia é a força consuetudinária e
conservadora mais perigosa; se ela chega a se constituir como um corpo
solidário, voltado para si mesmo e independente da massa, o partido
termina por se tornar anacrônico e, nos momentos de crise aguda, é
esvaziado de seu conteúdo social e resta como que solto no ar.”(GRAMSCI,
2000, V. 3: 61-62)Palavras
estas adequadas à caracterização da crise que atingiu o PCB no final
dos anos 1970 e levou Luiz Carlos Prestes a lançar a “Carta aos
Comunistas” de março de 1980 (PRESTES, L.C., 1980).Os
exemplos por mim mencionados são reveladores das inesgotáveis
possibilidades que, através dos caminhos apontados pela contribuição
teórica de Gramsci, se abrem para a elaboração de uma História
comprometida com a evidência e, por isso mesmo, também com as aspirações
de emancipação econômica, social e política de milhões de homens e
mulheres explorados e oprimidos, com os objetivos dos movimentos sociais
e das lutas populares por um mundo melhor, com justiça social e
liberdade, que, a meu ver, só poderá ser conquistado com uma
transformação radical, de caráter socialista.Referências:-BIGNAMI,
A. El pensamiento de Gramsci: una introduccion. 2 ed. Buenos
Aires:Editorial El Folleto, s.d.-BUCI-GLUCKSMANN, C. Gramsci e lo statu:
per uma teoria materialistica dellafilosofia. Roma:
Riuniti,1976.-GRAMSCI, A. Cadernos do cárcere. 2 ed. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira,2001, V. 1.-____________.Cadernos do cárcere. 2
ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,2001, V.
2.-____________.Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2000,V.3.-____________.
Escritos Políticos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004, V.
2.-HOBSBAWM, E. Nacionalismo e marxismo. In: J. PINSKY (org.). Questão
nacional e marxismo. São Paulo: Brasiliense, 1980, p.
294-323.-_____________.Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991.
São Paulo:Companhia das Letras,1995.-_____________. Sobre a história.
São Paulo: Companhia das Letras, 1998.-LENIN, V. I. Obras escogidas en
tres tomos. Moscú: Progreso, 1960, V. 2.-LIGUORI, G. Roteiros para
Gramsci. Rio de Janeiro: UFRJ, 2007.-PRESTES, A. L. “A que herança devem
os comunistas renunciar?” Oitenta, PortoAlegre: LP&M, nº 4,
1980.-_____________. Os comunistas brasileiros (1945-1956/58): Luiz
Carlos Prestes e apolítica do PCB. São Paulo: Brasiliense,
2010.-PRESTES, L.C. Carta aos comunistas. São Paulo: Alfa-Omega,
1980.-THOMPSON, E. P. Tradición, revuelta y consciência de clase;
estúdios sobre la crisisde la sociedad preindustrial. Barcelona:
Crítica, 1984.-VILAR, P. História marxista, história em construção. In:
LE GOFF, J.; NORA, P.(Ed.). História: novos problemas. 2 ed. Rio de
Janeiro: Alves, 1979, p. 146-178.-________. Iniciación al vocabulario
del análisis histórico. Barcelona: Crítica, 1982.Fonte:https://www.revistas.ufrj.br/index.php/RevistaHistoriaComparada/art...